Anderson's profileAracnos by Anderson Oliv...PhotosBlogListsMore ![]() | Help |
Aracnos by Anderson Oliveira |
||||||||||||||||||||||||||||||
|
January 07 Capítulo 44 AS CRÔNICAS DA TERRA Como se não bastassem as analogias encontradas entre a mitologia grega e a hindu, tábuas de argila descobertas nos arquivos hititas (num sítio arqueológico hoje conhecido como Bogazkõy) continham mais relatos sobre as mesmas histórias. Falavam de disputas entre gerações mais novas e mais velhas e sobre a luta de um deus pela supremacia. Os textos mais longos como seria de esperar, tratavam da deidade suprema dos hititas, Teshub: de sua genealogia, seu direito de dominar as regiões superiores da Terra e as guerras que teve com o deus Kumarbi e seus descendentes. Contendo diversos paralelos com lendas gregas e egípcias, esses registros dizem que o Vingador de Kumarbi foi escondido pelos que o apoiavam numa região da Terra "de tons escuros", até que ele se tornasse adulto. A batalha final entre eles e Teshub desenrolou-se nos mares e no ar; numa das lutas, Teshub foi auxiliado por setenta deuses conduzindo seus carros magníficos. Nas primeiras refregas, Teshub foi ferido e precisou esconder-se, ou exilar-se, mas finalmente voltou para desafiar seu oponente num combate pessoal. Armado com "o Trovejador que espalha pedras por quase dois quilômetros" e com "o Raio que cintila assustadoramente", ele subiu aos céus em seu carro puxado por dois Touros do Céu folheados a ouro e de lá "voltou seu rosto" para o inimigo. Embora esteja faltando o final do conto, pois as placas estão muito fragmentadas, fica evidente que Teshub saiu vitorioso. Quem eram esses deuses antigos que lutaram entre si pela supremacia da Terra, atirando uma nação contra outra? Encontramos algumas pistas sobre eles nos tratados que puseram fim a algumas das inúmeras guerras que os homens fizeram em favor de seus deuses. Quando os egípcios e os hititas firmaram a paz depois de mais de dois séculos de conflito, ela foi selada pelo casamento da filha do rei Hattusilish li com Ramsés II. O faraó registrou o evento em estelas comemorativas que mandou colocar em Kamak, na ilha Elefantina, perto de Assuã, e em Abu Simbel. Descrevendo a viagem e a chegada da princesa ao Egito, a inscrição conta que, quando "Sua Majestade viu que a noiva era tão bela de rosto como uma deusa", imediatamente se apaixonou por ela, considerando-a "um encantador presente do Deus Ptah" e o justo reconhecimento de sua "vitória" pelos hititas. Outros trechos da inscrição esclarecem melhor todas as manobras diplomáticas que levaram a essa história de amor. Treze anos antes, Hattusilish enviara ao faraó os termos de um tratado de paz, mas Ramsés, ainda impressionado com sua experiência quase fatal na batalha de Cades, o ignorara. "O grande chefe de Hatti então escreveu a sua majestade ano após ano, tentando uma conciliação; mas o rei Ramsés não lhe deu atenção". Finalmente, Hattusilish, desistindo das mensagens em placas de argila, "enviou sua filha mais velha, precedida de precioso tributo", acompanhada de nobres da corte. O faraó, depois de receber todos os presentes, designou uma escolta para ir encontrar-se com os visitantes e levá-los para o palácio. Foi então que, como vimos acima, ele sucumbiu aos encantos da princesa. Fazendo dela sua rainha, Ramsés deu-lhe o nome de Maat-Neferu-Ra ("A Beleza que Ra Contempla"). Esse amor à primeira vista foi de muita valia para aumentar nossos conhecimentos sobre a história da Antiguidade, pois o faraó acabou aceitando o tratado de paz, que se mostrou duradouro, e mandou gravá-lo em Karnak, não muito longe da estela com o conto sobre a batalha de Cades e o da chegada da bela princesa. Duas cópias do texto do tratado - uma quase completa e outra bastante quebrada - foram descobertas, decifradas e traduzi das por egiptólogos, e como resultado não temos apenas todos os termos de acordo, mas sabemos também que o rei hitita escreveu-o em acadiano, a língua usada na época para as relações internacionais, tal como o francês no século 19. Para o faraó, Hattusilish enviou uma cópia do original em acadiano, gravada numa placa de prata, que a inscrição egípcia no templo de Karnak descreve da seguinte maneira:
O que está no meio da placa de prata, na frente: Figuras representando Set abraçando o grande príncipe de Hatti, cercadas por uma borda com as palavras "O selo de Set, governante do firmamento; o selo dos regulamentos feitos por Hattusilish"... O que está dentro do que cerca a imagem do selo de Set no outro lado: Figuras representando a deusa de Hatti abraçando a princesa, cercadas por uma borda com as palavras "O selo de Ra da cidade de Arinna, o senhor da terra"... O que está dentro da moldura que cerca as figuras: o selo de Ra de Arinna, o senhor de todas as terras. Nos arquivos reais hititas, os arqueólogos descobriram vários selos reais com desenhos da deidade principal abraçando o rei, exatamente como o descrito no templo de Kamak, inclusive com a inscrição na moldura circular. Por mais incrível que pareça, o tratado original, escrito em acadiano e ocupando duas placas de argila, também foi descoberto no sítio de Bogazkõy. Só que o texto hitita chama sua deidade suprema de Teshub, e não "Set de Hatti". Como Teshub, significava "Tempestade de Vento", e Set (a julgar pelo seu nome grego, Tífon) seria "Vento Furioso", tem-se a impressão de que os egípcios e os hititas estavam combinando seus panteões pelos epítetos dos deuses. Acompanhando essa linha, a esposa de Teshub, Hebat, é referida como "Senhora do Firmamento" na versão egípcia do texto, para haver um paralelo com a deidade local conhecida por esse título. Também, o que os egípcios escreveram como Ra ("O Brilhante") era o hitita "Senhor do Firmamento", a quem a versão acadiana chama de Shamash ("O Brilhante"), e assim por diante. Com a descoberta desses textos, ficou evidente que egípcios e hititas estavam combinando panteões separados, porém paralelos, e os estudiosos começaram a imaginar o que outros tratados da Antiguidade poderiam revelar. Um dos que forneceram informações surpreendentes foi o feito por volta de 1350 a.C. entre o rei hitita Shuppilulima e Mattiwaza, soberano do reino hurrita de Mitanni, que ficava situado às margens do rio Eufrates, entre o país dos hititas e as antigas terras de Sumer e Acad. Feito em duas cópias, como de hábito, o original do tratado foi depositado no santuário do deus Teshub, na cidade dos hurritas chamada Kahat - e tanto a aplaca como o lugar perderam-se nas areias do tempo. No entanto, a outra cópia, colocada na cidade sagrada dos hititas, Arinna, "diante da deusa do Disco Surgente", foi descoberta pelos arqueólogos cerca de 3300 anos depois! Como todos os tratados escritos na época, esse também terminava com um apelo "aos deuses das partes contratantes para estarem presentes, para ouvirem e servirem de testemunhas", de modo que a adesão aos termos resultasse em bem-aventurança, e a violação em castigo divino. Vinha então a lista dos deuses dos dois reinos começando com Teshub e sua consorte Hebat como as divindades supremas de ambos, seguidos pelos deuses "que regulam a realeza" em Hatti e Mitanni, em cujos santuários seriam guardadas as cópias. Depois havia várias deidades mais jovens, tanto masculinas como femininas, descendentes dos deuses reinantes, tendo ao lado o nome das capitais provinciais onde atuavam como divindades reinantes, representando seu país. Nesse tratado, os estudiosos encontraram uma lista bem clara, mostrando os mesmos deuses na mesma posição hierárquica, algo bem diverso do caso dos hititas com os egípcios, onde se tentou combinar panteões diferentes. Outros textos encontrados comprovaram que os hititas tinham emprestado seus deuses dos hurritas no início da formação de sua nação. No entanto, esse tratado em particular continha uma surpresa especial para os eruditos. No final da tábua de argila, entre as testemunhas divinas, estavam os nomes de Mitraash, Druwana, Indar e os deuses Nashatiyanu - nada mais nada menos que Mitra, Varuna, Indra e os Nasatya do panteão hindu. Os deuses hurritas seriam, então a fonte de onde tinham se originado os hititas e os hindus? A resposta foi encontrada nesse mesmo tratado, pois esses deuses "arianos" estavam precedidos dos nomes de seus pais e avós, os "Velhos Deuses": os casais Anu e Antu, Enlil e sua esposa Ninlil, Ea e Damkina, e mais "o divino Sin, senhor da promessa... Nergal de Kutha... o deus guerreiro Ninurta... a guerreira Ishtar". Esses nomes são mais que conhecidos. Eles já tinham sido invocados por Sargão de Acad, que afirmara ser "Supervisor de Ishtar, sacerdote ungido de Anu, o grande e virtuoso pastor de Enlil". O neto de Sargão, Naram-Sin ("A Quem o Deus Sin Ama"), escreveu que só pôde atacar a Montanha dos Cedros quando o deus Nergal "abriu o caminho" para ele. Hamurabi da Babilônia marchou contra outras terras "sob o comando de Anu, com Enlil avançando à frente do exército". O rei assírio partiu para suas conquistas atendendo as ordens de Anu, Adad e Ninurta. Shalmaneser lutou com armas fornecidas por Nergal. Asaradão, ao marchar para Nínive, tinha a companhia de Ishtar. Esclarecedora também foi a descoberta de que os hititas e hurritas, embora falassem línguas diferentes, escreviam o nome de seus deuses em sumério. Até mesmo o adjetivo "divino" era o sumério DIN.GIR, literalmente "Os Justos (DIN) dos Foguetes (GIR)" . Assim, o nome de Teshub era escrito DIN.GIR IM ("O Divino Tempestuoso"), que era o nome sumério do deus Ishkur, também conhecido como Adad; ou podia ser escrito DIN.GIR U, significando "O Deus 10", a posição numérica de Ishkur/ Adad - já que a de Anu era a mais alta (60), vindo em seguida Enlil (50), Ea (40), e assim por diante. Também, como o deus sumério IshkurÃdad, Teshub era retratado pelos hititas brandindo sua arma emissora de raios, uma "Arma de Brilho". Na época em que os arqueólogos, escavando a região de Bogazkõy, tiraram do esquecimento o povo hitita e seus manuscritos, os estudiosos já tinham como certo que antes dele e dos egípcios, antes da Assíria e da Babilônia, e até mesmo antes de Acad, florescera na Mesopotâmia uma grande civilização, a Suméria, e que todas as outras subseqüentes não passavam de seus rebentos. Atualmente não existe dúvida nenhuma de que foi na Suméria que as lendas sobre deuses e homens foram registradas pela primeira vez. Os escribas nos deixaram numerosos textos - numa quantidade e com uma riqueza de detalhes surpreendentes -, dos quais se originaram os registros sobre a pré-história e história antiga de nosso planeta. E a esses textos chamamos de AS CRÔNICAS DA TERRA. A descoberta e a compreensão das civilizações tem sido um processo de contínuo espanto, de surpresa constante. Os monumentos da Antiguidade - pirâmides, zigurates, imensas plataformas artificiais, templos monumentais - teriam permanecido como simples enigmas, indícios mudos de eventos ocorridos há muito tempo, se não fosse a Palavra Escrita. Se não existissem as inscrições, jamais saberíamos a respeito da idade, dos construtores e do propósito dessas maravilhas antigas. Devemos tudo o que sabemos aos escribas da Antiguidade um bando prolífico e meticuloso que usou monumentos, artefatos, pedras de fundação, tijolos, utensílios, armas e objetos dos mais diferentes materiais para escrever nomes e registrar eventos. Acima de tudo, eles usaram tabuinhas de argila: pedaços de barro úmido, alguns apenas do tamanho da palma da mão, em que o escriba, com gestos hábeis, gravava com um instrumento pontudo os símbolos que formavam sílabas, palavras e sentenças. Em seguida a tabuinha era posta para secar, naturalmente ou em forno, e estava criado um registro permanente. Esses registros sobreviveram a milênios de anos de erosão natural e destruição humana. Num local após outro, em centros de comércio ou administração, em templos e palácios, por todos os cantos do Oriente Médio da Antiguidade, existiam arquivos estatais e particulares cheios dessas plaquinhas. Havia também verdadeiras bibliotecas, onde elas ficavam cuidadosamente arranjadas, classificadas por temas, com índice, o nome do escriba, em seqüência numerada etc. Sem exceção, sempre que continham a história ou a ciência dos deuses, eram identificadas como sendo cópias de tabuinhas anteriores, escritas na "língua antiga". Os arqueólogos ficaram maravilhados ao descobrir a grandeza da Assíria e da Babilônia, mas o que os surpreendeu ainda mais foram as inscrições falando em "cidades antigas". Também intrigaram-se com o título "rei da Suméria e Acad", que os soberanos desses impérios tanto desejavam. Só depois da descoberta dos registros sobre Sargão de Acad foi que os estudiosos modernos se convenceram de que um grande reino, o de Acad, realmente florescera na Mesopotâmia meio milênio antes do surgimento da Assíria e da Babilônia. Foi com enorme espanto que eles leram nesses documentos que Sargão "derrotara Uruk e demolira sua muralha... Sargão, rei de Acad, derrotou o povo de Ur... Ele venceu E-Nimmar, derrubou suas muralhas e conquistou seus territórios, de Lagash até o mar. Ele lavou suas armas no mar. Na batalha com os habitantes de Umma, saiu vitorioso...". Então existiam centros urbanos, cidades fortificadas na época de Sargão de Acad e até antes de 2500 a.C.? Atualmente se sabe que isso é verdade. Eram as cidades e centros urbanos da Suméria, aquela mesma Suméria que aparecia nos títulos tão ansiados pelos reis da Assíria e da Babilônia. Depois de um século de descobertas arqueológicas e pesquisas históricas, ficou estabelecido que aquela foi a região onde, há 6 mil anos, começou a Civilização Humana. Onde, de forma súbita e inexplicada, como se tivessem saído do nada, surgiram uma linguagem escrita e a literatura, reis e sacerdotes, escolas e templos, médicos e astrônomos, arranha-céus, canais, docas e navios, urna agricultura intensiva, uma metalurgia avançada, a indústria têxtil, o comércio e o intercâmbio, leis e conceitos de justiça e moralidade, teorias cosmológicas... E o registro de lendas e eventos da pré-história e da história. Em todas as inscrições, sejam elas longos contos épicos, sejam provérbios de duas linhas, em textos relativos ao divino ou ao mundano, emergem fatos que revelam os princípios inquebrantáveis dos sumérios e dos povos que vieram depois deles: em tempos muito antigos, os DIN.GIR - "Os Justos dos Foguetes" -, aqueles seres que os gregos passaram a chamar de "deuses", chegaram à Terra vindos de seu próprio planeta. Eles escolheram a parte sul da Mesopotâmia para se estabelecer, fazendo dela seu novo lar. Deram a essa região o nome de KI. EN.GIR - "A Terra do Senhor dos Foguetes" (Shumer, o nome acadiano, significava "Terra dos Guardiões") - e ali fundaram os primeiros povoados na Terra. Não era à toa que os sumérios afirmavam que os primeiros a estabelecer povoados na Terra tinham sido astronautas de outro planeta. Em todos os textos que falavam sobre o início da civilização, o ponto de partida era sempre algo como: "432 mil anos antes do Dilúvio, os DIN.GIR chegaram à Terra vindo de seu próprio planeta". Os sumérios consideravam esse planeta como o décimo segundo membro de nosso sistema solar, um sistema constituído pelo Sol no centro, a Lua e todos os nove planetas cuja existência conhecemos atualmente, mais um planeta muito grande, cuja órbita dura um Sar, ou seja, 3600 anos terrestres. Essa órbita, escreveram, leva o planeta a uma "estação" nos céus distantes e depois o traz para as vizinhanças da Tem, onde ele atravessa o espaço entre Marte e Júpiter. E foi devido a essa posição, mostrada num desenho sumério de 4500 anos, que o planeta ganhou seu nome NIBIRU ("Cruzamento") - e seu símbolo: a cruz. Por intermédio de numerosos textos sabemos que o comandante dos astronautas que chegou à Terra vindo de Nibiru era chamado E. A. ("Aquele cuja Casa Fica na Água"). Depois de estabelecer Eridu, a primeira base em nosso planeta, ele ganhou o título de EN.KI ("Senhor da Terra"). Uma inscrição descoberta nas ruínas da Suméria registra sua aterrissagem sob a forma de um relato na primeira pessoa:
Quando me aproximei da Terra, havia muita inundação. Quando me aproximei de suas várzeas verdejantes, ordenei que fossem empilhados montes de terra. Construímos minha casa num lugar puro... Minha casa... Sua sombra se estende sobre o pântano das cobras.
O texto prossegue descrevendo os esforços de Ea para construir extraordinárias obras de contenção de água nos pântanos da cabeceira do golfo Pérsico. Ele fez a topografia dos manguezais, abriu canais para drenagem e controle da água, construiu diques, escavou valas e erigiu estruturas de tijolos feitos com argila local. Além disso, uniu os rios Tigre e Eufrates por canais e, na margem da área pantanosa, construiu sua Casa na Água, com um ancoradouro e outras facilidades. Tudo isso não foi feito sem um motivo específico. Havia uma enorme necessidade de ouro no planeta de Ea. E essa necessidade não estava relacionada com usos frívolos, pois nos milênios que se seguiram esses viajantes jamais foram retratados usando jóias. O ouro, sem dúvida, desempenhava um papel importante no programa espacial dos nibiruanos, como fica evidente a partir dos textos hindus que descrevem carros celestiais folheados a ouro. E, de fato, o ouro é um metal vital em muitos dos instrumentos e veículos espaciais de nosso tempo. No entanto, isso apenas não justificaria a intensa procura por ele na Terra e os imensos esforços realizados pelos nibiruanos para minerá-lo aqui e transportá-lo em grandes quantidades para seu planeta. Tudo indica que o metal, devido a suas propriedades singulares, era necessário para atender exigência crucial, relacionada com a própria sobrevivência dos habitantes de Nibiru. É possível que fosse usado suspenso em partículas na atmosfera do planeta, funcionando como um escudo, protegendo-o de uma dissipação que seria fatal. Ea, filho do governante de Nibiru, foi bem escolhido para a missão. Ele era um engenheiro brilhante, além de cientista, apelidado de NU.DIN.MUD ("O que Faz Coisas"). Seu plano era extrair ouro das tranqüilas águas do golfo Pérsico e das áreas pantanosas adjacentes, que adentravam a Mesopotâmia. Os membros sumérios costumavam mostrá-lo como o deus das águas correntes, sentado num laboratório com frascos interconectados a sua volta. No entanto, o prosseguimento do relato sugere que nem tudo transcorria de acordo com o planejado. A produção de ouro mantinha-se abaixo das expectativas e, para lhe dar maior velocidade, mais astronautas foram enviados à Terra. Esses visitantes, que aparecem com o nome de Anartnaki ("Os que do Céu Vieram para a Terra"), começaram a chegar em grupos de cinqüenta, e um deles era liderado pelo primogênito de Ea/Enki, MAR.DUK. O relato registra uma mensagem urgente de Marduk a seu pai, na qual ele descreve uma quase calamidade no vôo para a Terra, quando a nave espacial passava perto de um dos grandes planetas do sistema solar, Júpiter provavelmente, e quase colidiu com um de seus satélites. Descrevendo o "ataque" contra sua nave, Marduk, ainda emocionado, contou ao pai:
Ele fora criado como uma arma; Avançou como se fosse a morte... Os Anunnaki, que são cinqüenta, ele golpeou... O Orbitador Supremo, voador, com aspecto de pássaro, ele golpeou no peito.
Uma gravação num selo cilíndrico sumério pode ser a ilustração do relato: mostra o Senhor da Terra (à esquerda), ansioso, saudando o filho, que está vestido como um astronauta (à direita), e a espaçonave entre Marte (a estrela de seis pontas) e a Terra (o sétimo planeta do sistema solar, contando-se de fora para dentro), simbolizada por sete pontinhos e com a Lua perto dela. No planeta natal de Enki, governado por seu pai AN (Anu, em acadiano), as atividades das equipes eram seguidas com ansiedade e expectativa. Pouco a pouco deve ter surgido a impaciência, e depois a decepção, com a falta de progresso. Evidentemente, o plano de extrair ouro da água do mar por meio de processos de laboratório não funcionava como se esperara de início. Todavia, o ouro continuava sendo de grande necessidade. Os Anunnaki só tinham duas opções: abandonar o projeto ou tentar obter o metal de outra maneira, isto é, pela mineração convencional. Eles sabiam que havia ouro em abundância no AB.ZU ("A Fonte Primeva"), no continente africano. (Nas línguas semitas que derivaram do sumério, até hoje zaab - abzu com as sílabas invertidas - é a palavra para ouro). Essa segunda opção, contudo, representava um grande problema. O ouro africano teria de ser retirado das profundezas da terra, o que significava abandonar um processo sofisticado de tratamento de água e enfrentar o duro trabalho de mineração abaixo da superfície do solo. Um empreendimento desse tipo exigiria mais Anunnaki, uma colônia no "lugar dos veios brilhantes", aumento das instalações na Mesopotâmia e uma frota de navios de minério (MA.GUR UR.NU AB.ZU - "Navios para os Minérios do Abzu") fazendo a ligação entre os dois povoamentos. Enki teria capacidade para administrar tudo isso sozinho? Anu achou que não. Oito anos de Nibiru depois da chegada de Enki - 28 800 anos terrestres -, ele veio à Terra para examinar a situação com seus próprios olhos e chegou acompanhado do herdeiro legítimo, EN.LIL ("Senhor do Comando"), talvez por considerá-lo mais qualificado para se encarregar da Missão Terra e organizar o transporte do ouro para Nibiru. A escolha de Enlil pode ter sido fundamental, mas criou sérios problemas, pois só serviu para aumentar a rivalidade e o ciúme entre os dois meios-irmãos. Enki era o primogênito de Anu com Id, uma de suas seis concubinas, e poderia esperar herdar o trono do pai. Mas, como aconteceu no conto bíblico envolvendo Abraão, sua concubina Hagar e Sara sua esposa e meia-irmã, a esposa e meia-irmã de Anu, Antum, lhe deu um filho, Enlil. Pelas regras de sucessão de Nibiru - fielmente adotadas pelo patriarca da Bíblia -, Enlil tornara-se o herdeiro legítimo, passando à frente de Enki. Podemos imaginar o que Enki sentiu ao ver seu rival, aquele que o privara do trono, chegar à Terra para assumir o comando! Nunca é demais enfatizar a importância da linhagem nas guerras dos deuses; elas estão na base de todas as lutas pela sucessão e supremacia, tanto em Nibiru como posteriormente na Terra. De fato, quando deslindamos a intrigante persistência e a ferocidade das guerras dos deuses, tentando encaixá-las na estrutura da história e da pré-história de nosso planeta - uma tarefa jamais tentada antes -, fica claro que todas tiveram origem num código de comportamento sexual não com base na moralidade, mas em considerações de pureza genética. No cerne dessas guerras sempre esteve uma intricada genealogia que determinava a hierarquia e a sucessão, e os atos sexuais dos que pertenciam à linhagem dominante não eram avaliados por sua ternura ou violência, mas por seu propósito e resultado. Existe uma lenda suméria que conta como Enlil, o comandante-chefe dos Anunnaki, encantou-se com uma jovem enfermeira que viu nadando nua num rio. Ele a persuadiu a acompanhá-lo num passeio de barco e fez sexo com ela, apesar dos protestos da moça ("Minha vulva é pequena, não conhece cópula"). Apesar de sua parte patente, Enlil foi preso pelos "cinqüenta deuses superiores" quando voltava para sua cidade, Nippur, e "os sete Anunnaki juízes" o consideraram culpado do crime de estupro, condenando-o ao exílio no Abzu. Ele só foi perdoado quando se casou com a jovem deusa, que o seguira até o exílio. Muitas canções celebraram o caso de amor entre Inanna e um jovem deus chamado Dumuzi, descrevendo com comovente ternura seus atos sexuais:
Ó, eles puseram sua mão na minha para mim. Ó, eles puseram seu coração perto do meu para mim. Doce é dormir de mão dada com ele, mas o mais doce dos doces é também a beleza e me unir coração a coração com ele.
O tom aprovador dos versos é compreensível, pois Dumuzi era o noivo de Inanna, escolhido por ela com a aprovação de seu irmão UtuShamash. Mas para nós é bastante difícil entender um texto em que Inanna descreve cenas de amor apaixonado com o próprio irmão:
Meu amado veio ao meu encontro, extraiu de mim, regozijou-se junto comigo. Meu irmão levou-me a sua casa, fez-me deitar em seu doce leito... Em uníssono as línguas trabalhando em uníssono, meu irmão, o do mais belo dos rostos, fez cinqüenta vezes. Devemos ter em mente que o código de conduta dos Anunnaki proibia o casamento, mas não o amor entre irmão e irmã plenos. Por outro lado, o casamento entre meios-irmãos era até encorajado, e os descendentes desse casal tinham precedência na ordem hierárquica. Enquanto o estupro era condenado, o sexo, mesmo se irregular e violento, era aceito desde que visasse a sucessão ao trono. Uma longa história relata como Enki, desejando ter um filho homem de sua meia-irmã Sud, aproveitou-se do fato de encontrá-la sozinha e "derramou sêmen em seu ventre". Sud, porém, deu à luz uma filha, e Enki, ainda querendo um herdeiro, passou a fazer amor com a menina logo que ela se tornou "jovem e bela". "Ele extraía prazer dela, abraçava-a, deitava em seu colo; ele toca as coxas, ele toca a ... Da menina com quem coabita". Esse tipo de coisa continuou despudoradamente com uma sucessão de filhas jovens até que Sud lançou uma maldição em Enki, que o deixou paralítico. Só então cessaram suas estripulias sexuais em busca de um herdeiro. Quando Enki envolveu-se nessas artes, ele já estava casado com Ninki, o que mostra que o mesmo código que condenava o estupro não proibia o incesto ou aventuras extraconjugais. Sabemos que os deuses podiam ter esposas e concubinas à vontade (um texto catalogado como CT-24 dá uma lista de seis concubinas de Anu), mas eram obrigados a escolher uma delas como a consorte oficial, dando sempre preferência a uma meia-irmã. Quando um deus, além de seu nome e vários epítetos, era contemplado com um nome-título, a consorte oficial passava a ser honrada com a forma feminina correspondente. Assim, quando An recebeu seu título ("O Celestial"), sua consorte passou a ser chamada de Antu, ou seja, Anu e Antum em acadiano. A enfermeira que se casou com Enlil ("O Senhor do Comando") recebeu o título-nome de Ninlil ("A Senhora do Comando"); a esposa de Enki, Damkina, era chamada de Ninki, e assim por diante. Devido à importância das relações familiares entre esses grandes Anunnaki, muitas das chamadas Listas de Deuses feitas pelos antigos escribas eram de natureza genealógica. Numa delas, intitulada AN:ilu Anun, estão os nomes de "quarenta e dois antepassados de Enlil", arranjados como vinte e um casais divinos. Isso devia ser um sinal de grande linhagem real, pois dois documentos que tratam de Anu também dão uma lista de vinte e um casais ancestrais em Nibiru. Aprendemos que os pais de Anu eram AN.SHAR.GAL ("O Grande Príncipe do Céu") e KI.SHAR.GAL ("A Grande Princesa do Solo Firme") e, como seus nomes indicam, eles não eram o casal reinante de Nibiru. Sendo um grande príncipe, o pai de Anu devia ser o herdeiro legítimo, e sua consorte a primeira filha do governante (com uma esposa diferente) e, assim, sua meia-irmã. Nesses acontecimentos ligados à genealogia estão a chave para a compreensão tanto dos eventos ocorridos em Nibiru, antes da vinda de seus habitantes para a Terra, como dos eventos posteriores, depois de sua chegada a nosso planeta. O fato de os nibiruanos terem mandado Ea vir à Terra em busca de ouro significa que eles já estavam a par da disponibilidade do metal neste planeta bem antes da chegada do primeiro grupo. Como? As respostas podem ser muitas. Talvez tenham sondando a Terra com satélites não tripulados, tal como atualmente estamos fazendo em relação a outros planetas de nosso sistema solar. É possível que tenham feito rápidas expedições à Terra, como fizemos à Lua. Na verdade, quando lemos os textos que tratam das viagens espaciais entre Nibiru e a Terra, não podemos descartar a possibilidade de eles também terem pousado em Marte. Não sabemos se nem quando aconteceram essas primeiras aterrissagens premeditadas, mas existe uma crônica muito antiga que fala de um pouso anterior feito em circunstâncias dramáticas, quando um governante deposto de Nibiru fugiu para nosso planeta pilotando sua espaçonave! Essa fuga deve ter acontecido bem antes de Ea ser mandado à Terra pelo pai, porque foi em decorrência dele que Anu conquistou o trono. A informação está contida num texto cuja versão hitita recebeu dos eruditos o nome de Realeza no Céu. Ele nos esclarece sobre a vida na corte de Nibiru e conta uma história de traição e usurpação digna de uma peça de Shakespeare. Revela que, quando chegou a hora da sucessão, seja por morte natural ou de outra forma qualquer, quem subiu ao trono não foi Anshargal, o pai de Anu e herdeiro legítimo, mas sim um parente chamado Alalu (Alalush, no texto hitita). Com um gesto de reconciliação, ou por ser o costume, Alalu indicou Anu para o cargo de copeiro-mor, uma posição de grande honra e confiança que conhecemos por intermédio de vários textos e desenhos do Oriente Médio da Antiguidade. Mas, depois de nove anos nibiruanos, Anu (Anush, em hitita) "desafiou Alalu em batalha" e o depôs:
Uma vez, nos velhos dias, Alalush era rei no Céu. Alalush estava sentado no trono; o poderoso Anush, primeiro entre os deuses, estava parado diante dele. Ele fazia uma reverência com uma taça nas mãos, Por nove períodos contados, Alalush foi rei no Céu. No nono período contado, Anush desafiou Alalush em batalha .
Foi então que, como nos conta esse antigo texto, ocorreu a dramática fuga para a Terra.
Alalush foi derrotado e fugiu da presença de Anush. Desceu para a Terra de tons escuros. Anush sentou-se no trono.
Embora seja possível que muito sobre nosso planeta e seus recursos já fossem do conhecimento dos habitantes de Nibiru antes do vôo de Alalu, o fato é que nesse relato temos o registro de uma aterrissagem de nibiruanos antes da chegada da missão de Ea. As Listas de Reis Sumerianas relatam que o primeiro administrador da cidade de Eridu chamava-se Alulim - nome que poderia ser um outro epíteto para EA/Enki ou a versão suméria de Alalu. Com isso, ocorre-nos que Alalu, apesar de ser um governante deposto, pudesse estar preocupado com o destino de seu planeta natal a ponto de avisar o usurpador de seu trono que encontrara ouro nas águas da Terra. Uma informação que talvez confirme essa teoria é o fato de que houve uma reconciliação entre o usurpador e a família do derrotado, pois Anu indicou Kumarbi, neto de Alalu, para ser seu copeiro-mor. No entanto, esse gesto de reconciliação só serviu para fazer a história se repetir em Nibiru. Apesar de todas as honras, Kumarbi não conseguiu esquecer que Anu usurpara o trono de seu avô. Com o passar do tempo sua hostilidade foi se tornando cada vez mais óbvia, até que Anu "não conseguia mais suportar o olhar de Kumarbi". Foi por isso que, ao decidir vir à Terra em companhia do herdeiro legítimo Enlil, Anu achou mais seguro trazer também o jovem Kumarbi. As duas decisões terminaram por estragar a visita com disputas e uma agonia pessoal para Anu. A resolução de trazer Enlil e colocá-lo no comando da missão criou discussões acaloradas com Enki, que ecoam em vários textos já decifrados. Enki, furioso, ameaçou deixar a Terra e voltar para Nibiru. No entanto, e se ao voltar para lá Enki resolvesse usurpar o trono? Anu poderia permanecer na Terra e indicar Enlil como seu substituto temporário em Nibiru, mas e se Enlil se recusasse a entregar o trono na volta do pai? Havia desconfiança por todos os lados. Finalmente ficou decidido que eles deixariam a escolha a cargo do destino, fazendo um sorteio. A divisão de autoridade que se seguiu é mencionada repetidamente nos textos sumérios e acadianos. Uma das mais longas Crônicas da Terra, um texto chamado O Épico Atra Hasis, registra o sorteio e seu resultado:
Os deuses deram-se as mãos, depois jogaram a sorte e dividiram: Anu subiu para o Céu; A Terra tomou-se súdita de Enlil; Aquilo que o mar envolve como um laço deram ao príncipe Enki. Enki ao Abzu desceu e assumiu o governo de Abzu.
Acreditando ter conseguido separar os irmãos rivais, "Anu subiu ao Céu". No entanto, enquanto estava no Firmamento da Terra, uma virada inesperada nos eventos o surpreendeu. Talvez como uma precaução, Kumarbi fora deixado na plataforma espacial que orbitava nosso planeta. Quando Anu chegou, pronto para partir na longa viagem de volta a Nibiru, viu-se confrontado pelo seu copeiro-mor. Palavras ásperas logo deram lugar a uma luta: Anu deu batalha a Kumarbi, e Kumarbi deu batalha a Anu. Vendo-se superado pelo adversário mais jovem, "Anu tentou desvencilhar-se das mãos de Kumarbi", mas este conseguiu agarrá-lo pelos pés e "mordeu-o entre os joelhos", ferindo Anu em sua "virilidade". Foram encontradas figuras antigas que ilustram a luta, mostrando inclusive o hábito dos Anunnaki de se ferirem nos órgãos genitais durante os combates pessoais. Desonrado, cheio de dores, Anu partiu para Nibiru, deixando Kumarbi com os astronautas que tripulavam a plataforma orbital e os ônibus espaciais. Mas, antes de ir, amaldiçoou seu jovem inimigo, desejando que ele criasse "três monstros em sua barriga". A similaridade entre esse conto hitita com a lenda da castração de Urano por Cronos não pede análises mais elaboradas. E, tal como nas lendas gregas, esse episódio preparou a cena para as guerras entre os deuses e os Titãs. Depois da partida de Anu, a Missão Terra foi acelerada. À medida que mais Anunnaki iam aterrissando - seu número acabou chegando a seiscentos -, alguns eram mandados ao Mundo Inferior para ajudar Enki na mineração do ouro, outros iam engrossar a tripulação dos navios de minério e o restante ficava com Enlil na Mesopotâmia. Nessa região foram fundados novos povoados, de acordo com um plano diretor elaborado por Enlil, parte de um plano completo de organização de procedimentos:
Ele aperfeiçoou os procedimentos, ordens divinas; Estabeleceu cinco cidades em lugares perfeitos, Deu um nome a cada uma. Arranjou-as como centros. A primeira dessas cidades, Eridu, Ele concedeu a Nudimmud, o pioneiro. Cada um desses povoados pré-diluvianos da Mesopotâmia tinha uma função específica, revelada por seu nome. O primeiro foi E.RI.DU ("Casa Construída num Lugar Longínquo"), o local de extração do ouro, situado à margem das águas, que permaneceu sempre como a residência de Ea na Mesopotâmia. Depois veio BAD.TIBlRA ("Lugar Brilhante onde os Minérios são Finalizados"), o centro metalúrgico onde era feita a fundição e o refino do ouro. Em seguida LA.RA.AK ("Vendo a Luz Brilhante"), a cidade onde ficava o radiofarol que orientava a aterrissagem dos ônibus espaciais. SIPRAR ("Cidade dos Pássaros"), o local do espaçoporto. E, depois, SHU.RUP.PAK ("O Lugar do Máximo Bem-Estar"), equipado com centro médico e que foi colocado sob a direção de Sud ("Aquela que Ressuscita"), meia-irmã tanto de Enki como de Enlil. Uma outra cidade-guia, LA.AR.SA ("Vendo a Luz Vermelha"), também foi construída, pois a complexa operação da Missão Terra dependia de uma coordenação perfeita entre os Anunnaki e trezentos astronautas, os IGIGI ("Os que Vêem e Observam"), que permaneciam orbitando a Terra. Agindo como intermediários entre a Terra e Nibiru, os Igigi tripulavam as plataformas orbitais, onde ficavam estocadas as barras de ouro vindas da Terra nos ônibus espaciais, para serem transferidas posteriormente às espaçonaves maiores. Essas espaçonaves maiores depois as transportavam para o planeta-mãe, quando este se aproximava da Terra, completando sua enorme órbita elíptica. O mesmo caminho, ao contrário, era seguido na entrega de equipamentos e novos astronautas para a Terra. Toda essa operação exigia um Centro de Controle da Missão, que logo Enlil começou a construir e equipar. Ele recebeu o nome de NIBRU.KI ("O Lugar de Nibiru na Terra") - Nippur, em acadiano. Lá, sobre uma plataforma artificialmente construída, equipada com antenas - o protótipo da "Torre de Babel" -, ficava uma câmara secreta, a DIR.GA ("Câmara Escura, Incandescente"), onde eram guardados os mapas espaciais ("Os emblemas das estrelas") e mantido o DUR.AN.KI ("O Vínculo entre o Céu e a Terra"). As crônicas garantem que os primeiros povoados dos Anunnaki na Terra foram "arranjados como centros". A essa afirmação enigmática podemos acrescentar o mistério das palavras dos reis pós-diluvianos, que diziam que, ao reconstruírem na Suméria as cidades arrasadas pelo dilúvio, tinham seguido:
O perene plano básico, que durante todo o tempo a construção determinou. Ele é aquele que contém os desenhos dos Tempos Antigos e a escrita do Céu Superior.
O enigma fica resolvido quando marcamos as primeiras cidades fundadas por Enki e Enlil no mapa da região e as ligamos com círculos concêntricos. De fato elas foram "arranjadas como centros", todas eqüidistantes do Centro de Controle da Missão, em Nippur. E sua disposição era mesmo um plano vindo do "Céu Superior", pois só faz sentido a alguém que pudesse ver todo o Oriente Médio de bem alto. Escolhendo como o marco geodésico o monte Ararat com seus dois picos - o acidente geográfico mais notável da área -, os "deuses" construíram seu espaçoporto no ponto onde um eixo norte cortando o Ararat cruzava o rio Eufrates, facilmente visível. Nesse "perene plano básico", todas as cidades estavam arranjadas em flecha, determinando o Corredor de Aterrissagem até o espaçoporto de Sippar. As periódicas remessas de ouro para Nibiru devem ter aplacado até mesmo as grandes rivalidades naquele planeta, pois Anu continuou seu soberano por um longo tempo. No entanto, os principais atores que ficaram na Terra, neste palco de "tons escuros", estavam prontos para dar vazão a todas as emoções imagináveis e entrar em incríveis conflitos. October 28 Capítulo 33 OS MÍSSEIS DE ZEUS E INDRA
Depois de visitar o Egito, no século 5 a.C., Heródoto se convenceu de que os gregos haviam adquirido suas noções e crenças divinas a partir das tradições daquele país. Escrevendo para seus compatriotas, ele empregou nomes de deuses gregos para descrever as deidades egípcias análogas. Além da analogia existente entre os atributos e os significados dos nomes dos deuses do Egito e da Grécia, um outro aspecto que levou o historiador a acreditar na origem egípcia da teogonia grega foram as semelhanças entre suas lendas. Uma dessas lendas, encontrada tanto entre os gregos como entre os egípcios, era a que narra a castração de um deus por outro numa disputa por supremacia. Heródoto deve ter ficado bastante intrigado, pois a história era peculiar demais para ser encarada como mera coincidência. Por sorte, as fontes gregas das quais Heródoto provavelmente extraiu seus relatos ainda existem. São várias obras literárias, escritas e bem conhecidas muito antes dele; como a Ilíada, de Homero, as Odes, de Píndaro de Tebas, e principalmente a Teogonia ("Genealogia Divina"), de Hesíodo, um escritor nascido em Áscara, na Grécia central, e que viveu no século 8 a.C. Sendo poeta, Hesíodo preferiu atribuir a autoria da Teogonia às Musas, as deusas da música, da literatura e da arte, que segundo ele o incentivaram a "celebrar em canções" as histórias da "reverenciada raça dos deuses, desde seu início... e cantar em seguida a raça dos homens e dos gigantes, para com isso alegrar o coração de Zeus no Olimpo". Diz Hesíodo que as Musas o procuraram num certo dia em que ele estava "apascentando suas ovelhas" perto da Montanha Sagrada em que elas habitavam. Apesar dessa introdução bucólica, a história dos deuses revelada a Hesíodo pelas Musas era cheia de paixão, revolta, astúcia, mutilação e sangrentas lutas. A despeito de toda a glorificação de Zeus, não existe nos relatos nenhuma tentativa aparente de se encobrir a torrente de sanguinolenta violência que o levou à supremacia. Hesíodo, transmitindo "as coisas que as Musas, nove filhas de Zeus, cantaram", escreveu:
Em verdade, no começo existia o Caos, e em seguida veio Géia, de amplo seio... Então surgiu Tártaro, nas profundezas da Terra, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais... De Caos saíram Érebo e a negra Nyx; e de Nyx nasceram Éter e Hemera.
Esse primeiro grupo de deuses celestiais ficou completo quando Géia ("Terra") casou-se com seu próprio primogênito, Urano ("Céu Estrelado"), para poder incluí-lo na Primeira Dinastia dos deuses. Logo após ter dado à luz Urano, Géia teve uma filha, a graciosa Uréia, e um outro filho, "Ponto, a infrutífera Profundeza, com sua maré furiosa". A geração seguinte de deuses era constituída pelos descendentes de Géia e Urano:
Mais tarde ela deitou-se com Urano e gerou o turbulento Oceano; Coeus, Crius, Hiperíon e Iapeto; Téia e Réia,Têmis e Mnemosine; E Foebe, coroada de ouro, e a bela Tétis. Depois deles nasceu Cronos, o voluntarioso, o mais jovem e terrível de seus filhos.
Embora essas doze criaturas - seis homens e seis mulheres fossem resultado de uma união entre mãe e filho, eram perfeitas, com uma aparência que fazia jus a sua origem divina. Mas, à medida que Urano ia se entregando cada vez mais a sua ânsia por sexo, seus outros descendentes, apesar de muito fortes, exibiam várias deformidades. Os primeiros monstros a nascer foram os três Ciclopes: Brontes ("O Trovejador"), Steropes ("O que Faz Raios"), e Arges ("O que Produz Irradiação"). "Em tudo eles eram como deuses, mas possuíam um único olho no meio da testa". "Três outros filhos nascidos da união entre Géia e Urano eram grandes e valentes de uma forma sem precedentes: Cotos, Briareu e Giges, crianças audaciosas." Eram os Hecatônquiros ("Os de Cem Braços"), pois, como acrescenta Hesíodo, "de seus ombros saíam cem braços que não deixavam ninguém se aproximar deles, e cada um possuía cinqüenta cabeças". Segundo conta a Teogonia, "Cronos odiava o pai devido a sua sensualidade exacerbada, mas Urano rejubilava-se com as próprias más ações". "Então Géia confeccionou uma foice e explicou a seus queridos filhos o plano que elaborara", pelo qual o "pai pecador" seria punido por suas "vilanias". Ela cortaria a genitália de Urano, pondo fim a seus excessos sexuais. "O medo apoderou-se de todos; somente Cronos, o voluntarioso, mostrou coragem". Vendo que Cronos era o único que teria a força suficiente para levar o plano adiante, Géia entregou-lhe a foice que confeccionara a partir de sílex cinzento e escondeu o filho em seus próprios aposentos, que ficavam à margem do Mediterrâneo.
E Urano veio à noite, ansiando por amor; deitou com Géia, esparramando-se sobre ela. Então o filho saiu do esconderijo, estendeu a mão esquerda na direção do pai, enquanto na direita segurava a comprida foice de dentes como serra. Num movimento rápido, cortou os órgãos genitais do próprio pai e jogou-os para trás, atirando-os no mar.
A castração de Urano não pôs fim a sua linha de descendentes. O sangue esguichava pelo ferimento e algumas gotas penetraram Géia, que concebeu e deu à luz "as fortes Ennins" ("Fúrias da Vingança"), "os Gigantes de armaduras brilhantes, com longas lanças nas mãos, e as Ninfas chamadas Melíades, as protetoras das árvores". Dos órgãos genitais decepados, que foram deixando atrás de si um rastro de espuma enquanto eram levados pela correnteza, "nasceu uma terrível e linda deusa... que homens e deuses chamam de ' Afrodite'". Urano, querendo se vingar, chamou pelos deuses-monstros. Seus primeiros filhos, alegou, tinham se transformado "numa outra linhagem", os Titãs, que levados pela presunção tinham cometido o terrível crime. O assustado Cronos apressou-se a prender os Ciclopes e os outros gigantes monstruosos num local bem distante, para que nenhum deles pudesse atender ao chamado de seu pai. Os outros deuses primordiais, além de Urano, também procriavam. Seus filhos recebiam nomes indicando seus atributos, e eles estavam longe de ser benevolentes. Depois da castração, Nyx atendeu o chamado do irmão e, para ajudá-lo na vingança, gerou as deidades do mal: "Ela deu à luz o Destino e as cruéis Parcas... a Destruição e a Morte... a acusação e a Dolorosa Aflição... a Fome e o Sofrimento". Nyx também trouxe ao mundo a Contenda e mais as Lutas, Batalhas, Assassinatos, Brigas, Mentiras, Disputas, Ilegalidade e Ruína. Finalmente nasceu Nêmesis ("Retribuição"). Urano teve seu chamado atendido: lutas, batalhas e guerras passaram a existir entre os deuses. Os Titãs também traziam a esse mundo perigoso a terceira geração de deuses. Temerosos da retribuição, mantinham-se muito unidos, e cinco dos irmãos casaram-se com cinco das irmãs. Desses casais divinos, o mais importante era aquele formado por Réia e Cronos, porque este, devido a sua audácia, assumira a liderança dos Titãs. Réia deu à luz três filhas e três filhos: Héstia, Deméter e Hera; Hades, Poseidon e Zeus. Mas, como conta a Teogonia, assim que lhe nascia um descendente, Cronos o engolia. O motivo dessa atitude era uma profecia que vaticinava que ele seria derrotado por um de seus filhos, repetindo-se assim o que fizera com seu pai, Urano. No entanto, o Destino não podia ser evitado. Para enganar Cronos, Réia escondeu o recém-nascido Zeus na ilha de Creta, e em lugar dele entregou ao marido "uma pedra envolta em coqueiros". Sem perceber o engodo, Cronos engoliu a pedra. Logo depois começou a vomitar e devolveu ao mundo todos os filhos que tentara eliminar anteriormente. "Com o passar dos anos, a força e os gloriosos membros do príncipe Zeus cresceram rapidamente". Por algum tempo, sendo um neto digno do lascivo Urano, o jovem Zeus só pensou em aventuras amorosas, envolvendo-se com uma variedade de belas deusas, muitas vezes entrando em lutas com seus parceiros. Contudo, acabou chegando a hora de ele voltar sua atenção para os negócios de Estado. Havia dez anos os Titãs mais velhos, habitantes do monte Otíris, viviam em constante disputa com os mais jovens, "aqueles que Réia, a de longos cabelos, gerara em resultado de sua união com Cronos" e que moravam no monte Olimpo. Se essa guerra era uma simples culminância de deterioração das relações entre colônias de deuses rivais, se uma explosão de ciúme entre deuses e deusas infiéis e amorais ou uma primeira etapa da perene rebelião dos jovens contra o antigo sistema, a Teogonia não nos esclarece. Mas as lendas e as peças de teatro gregas sugerem que tudo isso, em seu conjunto, criou uma prolongada e "obstinada" disputa entre os deuses mais velhos e os mais jovens. Zeus viu nesse conflito a oportunidade de conquistar a supremacia sobre os deuses e, consciente ou inconscientemente, fez cumprir o destino de Cronos: ser derrotado pelo próprio filho.
O primeiro ato de Zeus foi "libertar os irmãos de seu pai, os filhos de Urano que Cronos, em sua tolice, mandara prender". Em sinal de gratidão, os três Ciclopes lhe deram as armas divinas que Géia escondera do marido lascivo: "O Trovão, o Raio e o Relâmpago que Irradiava". Os dois irmãos de Zeus também receberam presentes: Hades ganhou um capacete mágico, que o tornava invisível, e Poseidon um tridente milagroso, capaz de fazer o céu e a terra estremecerem. Para restaurar a disposição dos Hecatônquiros depois do longo cativeiro, devolvendo-lhes o antigo vigor, Zeus mandou servir-lhes "néctar e ambrósia, o mesmo que os deuses comem". Em seguida, dirigiu-se a eles dizendo:
Ouvi-me, ó brilhantes filhos de Géia e Urano, para que eu possa dizer o que meu coração pede. Faz muito tempo que nós, os nascidos de Cronos, e os Titãs lutamos diariamente uns com os outros, para obtermos a vitória e prevalecermos. Quereis agora mostrar vossa grande força e poder e enfrentar os Titãs nessa amarga contenda?
Cotos, um dos que possuíam cem braços, respondeu: "Divino, falas bem o que sabemos... por causa de tuas tramas voltamos da escuridão, nos libertamos de cruéis grilhões. E agora, com firme propósito e numa decisão conjunta, aumentaremos teu poder nessa guerra terrível e lutaremos contra os Titãs em duras batalhas". Assim, "todos os que nasceram de Cronos, junto com os temidos poderosos de inigualável força que Zeus devolvera à luz... todos, machos e fêmeas, atiçaram a odiosa batalha". Os Titãs mais velhos "ansiosamente arranjaram suas fileiras" para enfrentar os olímpicos. A guerra envolveu toda a Terra e também os céus:
O mar ilimitado rugia, a terra explodia; Os céus estremeciam e gemiam, o alto Olimpo balançou em suas bases sob a carga dos deuses imortais. O trovejar dos pés dos deuses e o aterrador ataque de seus duros mísseis criaram um terremoto que atingiu até o Tártaro.
Num verso que nos faz lembrar o texto da profecia dos Manuscritos do Mar Morto, a Teogonia fala dos gritos de guerra dos deuses em batalha:
Eles lançaram seus atrozes raios uns contra os outros. O clamor dos gritos dos dois exércitos chegou ao céu estrelado enquanto eles se enfrentavam com grande furor.
Zeus entrara na luta com todo o seu poderio, usando ao máximo as Armas Divinas que possuía: "Dos céus, pelo outro lado do monte Olimpo, ele desceu, atirando seus raios. As faíscas voavam espessa e rapidamente de suas mãos. Trovões e raios juntos, rodopiando como uma chama aterradora. A terra fértil incendiou-se e vastas florestas estalaram com o calor. O solo fervia também a água doce dos rios e o salgado mar". Então Zeus lançou uma Pedra do Trovão contra o monte Otíris. Pelo que lemos no texto da Teogonia, entendemos que houve nada mais nada menos do que uma explosão atômica.
O vapor quente lambeu os Titãs nascidos de Géia; Chamas incalculáveis ergueram-se para o mais alto ar. O fulgor flamejante da Pedra do Trovão, suas faíscas cegaram olhos, tão fortes eram. Um calor terrível envolveu Caos... Era como se a Terra e o amplo Céu acima tivessem se juntado. Houve um estrondo violento, como se a Terra tivesse sido atirada a sua ruína.
Esse enorme estrondo aconteceu enquanto os deuses estavam engalfinhados em luta. Além do ruído apavorante, da explosão e do tremendo calor, o lançamento da Pedra do Trovão também deu origem a uma violenta tempestade de vento:
Os ventos também foram trazidos e chegaram rugindo; terremoto e tempestades de areia, trovões e raios.
Quando os dois lados viram e ouviram os efeitos da Pedra do Trovão do grande Zeus, "houve um período de terríveis lutas; grandes feitos foram realizados, mas a batalha começou a amainar". A guerra estava terminando porque os deuses tinham superado os Titãs em armamentos. "Não saciados com a guerra", os três Ciclopes caíram sobre os Titãs, derrotando-os com seus mísseis portáteis. "Eles os prenderam em tristes grilhões" e os levaram para o distante Tártaro. "E lá, pela vontade de Zeus, que cavalga as nuvens, os Titãs estão ocultos sob uma espessa névoa, num lugar úmido dos confins da Terra". Os Ciclopes permaneceram no Tártaro na qualidade de "fidedignos guardiões de Zeus", para vigiarem os prisioneiros. Quando Zeus estava para exigir a "égide", ou seja, a suserania sobre todos os deuses, um inesperado adversário surgiu em cena para desafiá-lo. "Quando Zeus expulsou os Titãs do céu, a grande Géia, com o auxílio da dourada Afrodite, deu à luz seu filho mais novo, Tifeu, fruto de seu amor com Tártaro". Tifeu ou Tífon era um monstro: "A força de suas mãos estava em tudo o que fazia, e os pés desse poderoso deus eram incansáveis. De seus membros cresciam uma centena de cabeças de serpente e um apavorante dragão, todos com línguas negras e sibilantes. Dessas impressionantes cabeças saía fogo e havia voz em todas elas, cada uma emitindo sons incríveis". Esses sons podiam ser o de um homem falando, o berro de um touro, o rugido de um leão ou o latir de um cachorro. Segundo Píndaro e Ésquilo, Tífon era gigantesco, e "sua cabeça tocava as estrelas". As Musas revelaram a Hesíodo: "Algo inevitável teria acontecido naquele dia; Tífon acabaria reinando sobre mortais e imortais". No entanto, Zeus percebeu o perigo a tempo e não demorou a atacar. A série de combates que se seguiu não foi menos impressionante que as batalhas entre os deuses e os Titãs, pois Tífon, o deus-serpente, possuía asas e, tal como Zeus, era capaz de voar. "Zeus trovejou com todo o seu poderio, e a terra em volta foi sacudida de forma impressionante, o mesmo acontecendo com o céu, o mar e os rios de todas as partes do mundo". As Armas Divinas voltaram a ser empregadas - e por ambos os combatentes.
Por causa dos dois, por causa de seus trovões e raios. O calor envolveu os mares azuis; Por causa do fogo do Monstro, dos ventos escaldantes e do Trovão fulgurante, toda a Terra ferveu como ferveram céu e mar. Grandes ondas estouraram nas praias... Houve um tremor interminável.
No Mundo Inferior, "Hades estremeceu em seus domínios". Tremeram também os Titãs presos nos confins da Terra. Os dois combatentes perseguiam-se por todo o céu da Terra. Zeus foi o primeiro a atingir o adversário, e usou para isso seu "lúgubre Trovão". A arma "queimou todas as extraordinárias cabeças do monstro e tudo que estava a sua volta", abatendo o impressionante aparelho de Tífon.
Quando Zeus o venceu, fulminando-o com seus golpes, Tifeu foi atirado contra o solo e espatifou-se. A imensa Terra gemeu. Uma chama saltou do deus atingido, no inóspito, escuro e recôndito vale do Monte, onde ele tombara. Uma grande parte da imensa Terra foi calcinada pelo terrível vapor, derretendo-se como derrete o estanho quando aquecido pelas artes do homem... Na incandescência de um fogo resplandecente, a Terra derreteu.
Apesar de o aparelho que pilotava ter se estatelado no chão, Tífon saiu vivo do desastre. Segundo a Teogonia, Zeus, como fizera com os Titãs, "atirou-o no amplo Tártaro". O vencedor, agora com seu reino seguro, voltou sua atenção para a importante tarefa de procriar, gerando descendentes com esposas e concubinas. Embora a Teogonia descreva um único combate entre Zeus e Tífon, outros textos gregos garantem que essa luta foi a luta final. Houve várias outras, em que Zeus foi o primeiro a ser ferido. De início ele combateu corpo a corpo, usando a foice que sua mãe confeccionara, para executar "o maldoso instrumento"; pois seu propósito era castrar Tífon. Mas este defendeu-se atirando sua rede, e Zeus ficou preso nela. Tífon então pegou a foice e com ela cortou os tendões dos pés e das mãos de Zeus. Em seguida depositou seu indefeso inimigo, seus tendões e armas numa caverna distante. Os deuses Egipano e Hermes encontraram a caverna, ressuscitaram Zeus refazendo seus tendões e devolveram-lhe as armas. Ele então retornou ao Olimpo voando numa "Carruagem Alada" e lá obteve um novo suprimento de raios para sua Arma Divina. Assim preparado, renovou seus ataques contra Tífon e conseguiu impeli-lo para o monte Nissa, onde as Parcas enganaram seu inimigo, fazendo-o comer o alimento dos mortais, o que o enfraqueceu em vez de torná-lo mais forte. Em seguida houve uma nova batalha nos céus do monte Hemo, na Trácia, que prosseguiu sobre o monte Etna, na Sicília, e foi terminar no monte Casio, na costa asiática do Mediterrâneo. E ali Zeus, usando seus raios, abateu Tífon. A similaridade entre os relatos sobre as batalhas e as armas empregadas, as lendas sobre castração, mutilação e ressurreição - todos relacionados com uma luta pela sucessão - convenceram Heródoto e outros historiadores gregos clássicos de que os gregos tinham emprestado sua teogonia dos egípcios. O deus Egipano dos gregos, por exemplo, seria o Deus Carneiro africano, e Hermes tinha muitos paralelos com Thot. A própria Teogonia conta que, quando Zeus partiu à procura da bela mortal Alcmene com a intenção de gerar o herói Héracles, ele se esgueirou do Olimpo à noite, sem ser notado, e foi para o país de Tifaônia, descendo no alto de Fíguion (a Montanha da Esfinge). A propósito, "a letal Esfinge, que destruiu os cadmeus ('Os Antigos')", mencionada nas lendas sobre Hera, a consorte oficial de Zeus, também estava ligada a Tífon e seus domínios. Além disso, o escritor Apolodoro contou que, quando Tífon começou a crescer, atingindo um tamanho gigantesco, os deuses apressaram-se a ir ao Egito para conhecer o impressionante monstro. A maioria dos eruditos afirma que o monte Casio, cena da última batalha entre Zeus e Tífon, ficava localizado perto da foz do rio Orontes, na atual Síria. Mas como Otto Eissfeldt mostrou num importante estudo (Baal Zaphon, Zeus Kasios und der Durchgang der Israeliten durches Meer), na Antiguidade existia um outro monte com esse nome - um promontório no lago salgado Serbônico, que avançava da península do Sinai para o Mediterrâneo. Ele sugere que esse seria o local mencionado nas lendas. Mais uma vez, só nos resta confiar nas informações que Heródoto recebeu no Egito. Descrevendo a rota terrestre entre a Fenícia e o Egito, passando pela Filistéia, ele escreveu (História, Livro III, 5) que as terras asiáticas "estendem-se até o lago Serbônico, perto do local onde o monte Casio avança para o mar. O Egito começa no lago Serbônico, onde, segundo a lenda, Tífon foi se esconder". Novamente as lendas gregas e egípcias se cruzam, dando a península do Sinai como a cena da batalha final. Apesar das inúmeras conexões encontradas pelos gregos entre seus deuses e os egípcios, foi num local muito distante desses dois países - a Índia - que os eruditos europeus descobriram paralelos ainda mais impressionantes entre as duas teogonias. No final do século 18, quando o sânscrito - a língua da antiga Índia - começou a ser compreendido pelos estudiosos, a Europa passou a se encantar com traduções de textos que até então lhe eram desconhecidos. De início, o estudo da literatura, da filosofia e da mitologia sânscritas foi um campo dominado pelos britânicos. No entanto, por volta de meados do século 19, ele se tornou um dos grandes preferidos dos intelectuais alemães, pois descobriu-se que o sânscrito era a língua-mãe dos idiomas indo-europeus (aos quais pertence o alemão) e que fora levado à Índia por migrantes saídos das margens do mar Cáspio - os arianos -, que seriam também os ancestrais dos alemães. A peça central da literatura sânscrita são os Vedas, escrituras sagradas que, segundo a tradição, foram redigidas pelos deuses em épocas muito remotas. Os Vedas foram levados para o subcontinente asiático por migrantes arianos em algum ponto do segundo milênio antes de Cristo, através da tradição oral. Com o passar dos séculos, grande parte das centenas de milhares de versos se perdeu. Mas, por volta de 200 a.C. um sábio reuniu os que restaram, dividindo-os em quatro partes: o Rigveda ("Veda de Versos"), composto por dez livros; o Sammaveda ("Vedas Cantados"); o Yajurveda (basicamente preces sacrificiais); e o Atharvaveda (mágicas e encantamentos). Com o tempo, os vários componentes dos Vedas e a literatura auxiliar deles originada - Mantras, Bramanas, Aranyakes, Upanishads - ampliaram-se com os Puranas (manuscritos antigos) não-védicos. Junto com os grandes épicos hindus do Mahabharata e do Ramayana, eles constituem as fontes das lendas sobre o Céu e a Terra, sobre deuses e heróis. Devido ao amplo período em que foram transmitidos oralmente e à enorme quantidade de textos escritos, copiados e recopiados ao longo dos séculos, os nomes, atributos e epítetos das deidades - aspectos agravados pelo fato de os nomes e termos originais não serem na verdade arianos -, não se pode confiar na consistência e na precisão da literatura védica, como bem reconhecem os estudiosos. No entanto, alguns fatos e eventos emergem como princípios básicos do legado hindu-ariano. No princípio, segundo essas fontes, havia apenas os corpos celestes, "Os Primevos que Fluem". Ocorreu uma comoção nos céus e o "Dragão" foi partido em dois pelo "Tempestuoso". Dando às duas partes nomes de origem não ariana, as lendas afirmam que Rehu, o pedaço superior do planeta destruído, continuou atravessando os céus em busca de vingança. A parte inferior, Ketu ("O Cortado"), juntou-se aos "Primevos" em seu fluxo (órbitas). Muitas eras se passaram, e então surgiu uma Dinastia de Deuses do Céu e da Terra. O celestial Mar-Ishi, que os chefiava, teve sete (ou dez) filhos com sua consorte Prit-Hivi ("A Ampla"), que personificava a Terra. Um deles, Kas-Yapa ("O do Trono"), tornou-se chefe dos Devas ("Os Luminosos"), conquistando o título de Dyaus-Pitar ("Pai do Céu") - um indubitável paralelo com o nome-título grego de Zeus ("Dyaus") e seu correspondente romano Júpiter ("Dyauspiter"). Muito prolífico, Kasyapa gerou um grande número de deuses, gigantes e descendentes monstruosos com várias esposas e concubinas. Deles, os mais preeminentes, conhecidos e reverenciados desde a era védica são os Adityas - alguns deles filhos da consorte oficial Aditi ("ilimitada"). De início os Adityas eram sete: Vishnu, Varuna, Mitra, Rudra, Pushan, Tvashtri e Indra. Mais tarde veio juntar-se a eles Agni, filho de Kasyapa com Aditi ou, como sugerem alguns textos, com sua própria mãe, Prithivi. O número dos Adityas acabou chegando a doze, o mesmo dos componentes do círculo olímpico dos gregos. Entre eles estava Bhaga, que os estudiosos acreditavam ser o deus eslávico conhecido como Bogh. O último dos Adityas a nascer foi Surya, mas não se sabe com certeza se ele era mesmo filho de Kasyapa. Tvashtri ("O Fabricante"), em seu papel de "Faz-Tudo", o artífice dos deuses, forneceu armas mágicas e carros voadores a todos os deuses. Usando um fulgurante metal celestial, ele construiu um disco para Vishnu, um tridente para Rudra, uma "arma de fogo" para Agni, um "trovejante arremessador" para Indra e uma "clava voadora" para Surya. Nas antigas figuras hindus, todas essas armas se parecem com mísseis portáteis, tendo as mais variadas formas. Além dessas armas, os deuses obtiveram outras com os assistentes de Tvashtri. Indra, por exemplo, recebeu uma "rede aérea", com a qual podia capturar os inimigos durante combates no céu. Os veículos celestes, ou "carros aéreos", eram invariavelmente descritos como luminosos e radiantes feitos ou folheados a ouro. O Vimana (carro aéreo) de Indra tinha luzes brilhantes nas laterais e movia-se "mais rápido que o pensamento", atravessando grandes distâncias com muita facilidade. Os cavalos invisíveis que o puxavam possuíam "olhos de sol", que emitiam raios de um tom avermelhado, às vezes mudando de cor. Em algumas lendas os carros aéreos dos deuses são descritos como tendo vários andares, e outras afirmam que além de voar eles podiam viajar sob a água. No conto épico Mahabharata, a chegada dos deuses a uma festa de casamento numa frota de veículos aéreos é descrita da seguinte forma (com base na tradução de R. Dutt em Mahabharata, The Epic of Ancient India):
Os deuses, em carros transportados por nuvens, vieram assistir a cena tão bela; Luminosos Adityas em seu esplendor, Maruts no ar corrente; Suparnas alados, Nagas escamosos, Rishis Devas puros e elevados; os Gandharvas, famosos por sua música, e os belos Apsaras do céu... Brilhantes naves celestes em comitiva, deslizavam pelo céu sem nuvens.
Os textos também falam nos Ashvins ("Condutores"), deuses especializados em dirigir os carros aéreos. "Rápidos como jovens falcões", eles eram "os melhores condutores que já atingiram os céus", e sempre guiavam seus artefatos em duplas, acompanhados de um navegador. Seus veículos, que às vezes surgiam em grupos, eram feitos de ouro, sendo "luminosos e radiantes... confortáveis de sentar e com um macio ondular". Esses carros aéreos eram construídos com base num princípio triplo, pois tinham três andares, três poltronas, três varas de apoio e três rodas giratórias. O Hino 22 do Livro VIII do Rigveda diz, ao louvar os Ashvins: "Sua carruagem possuía bancos triplos e rédeas de ouro - o famoso carro que atravessa Céus e Terra". Parece que as rodas giratórias tinham várias funções. Uma erguia a nave, outra a direcionava, e a terceira a impulsionava. "Uma das rodas de seu veículo está girando rapidamente; a outra acelera para colocá-lo em seu curso para a frente". Como acontece com os deuses das lendas gregas, os dos Vedas também mostram pouca moralidade e restrição em assuntos sexuais. Às vezes eles eram malsucedidos, como aconteceu com Dyaus, que por ter violado sua neta Ushas, irmã dos Adityas, tomou-se alvo da vingança destes, que encarregavam Rudra ("O Três-Olhos") de matá-lo. Dyaus salvou-se fugindo para um distante corpo celeste. Tal como aconteceu com os deuses gregos, posteriormente os hindus começaram a se envolver nas guerras e nos amores dos reis e heróis mortais. Nesses combates, os veículos aéreos dos deuses desempenhavam um papel mais importante que suas armas. Assim, quando um herói afogou-se, os Ashvins apareceram numa esquadrilha de três carros aéreos, "navios auto-impulsionados, hermeticamente fechados, que cruzavam o ar", e com eles mergulharam no mar, tiraram o herói das profundezas e "o levaram para a terra, além do oceano líquido". Há também a lenda de Yayati, um rei que se casou com a filha de um deus. Quando o casal gerou filhos, o feliz avô presenteou o genro com uma "fulgurante nave celestial feita de ouro que podia ir a qualquer lugar sem interrupção". Sem perder tempo, o rei "subiu no carro e, com ele, sendo imbatível em batalha, conquistou a Terra inteira em seis noites". Como na Ilíada, as tradições hindus também falam de guerras de homens e deuses e por causa de belas heroínas. A mais conhecida dessas lendas é o Ramayana, o longo épico de Rama, o príncipe cuja encantadora esposa foi raptada pelo rei de Lanka (a ilha de Ceilão). Entre os que apareceram para ajudar Rama estava Hanuman, o deus com cara de macaco que se envolveu em combates aéreos com o alado Garuda, um dos monstruosos filhos de Kasyapa. Em outra ocasião, Sukra, um deus "maculado pela imoralidade", raptou Tara, a bela esposa do condutor de Indra. Rudra e outros deuses apareceram para ajudar o marido ofendido. Houve então, "por causa de Tara, uma terrível batalha em que tombaram deuses e monstros". Apesar de seu impressionante armamento, os deuses levaram a pior e tiveram de procurar refúgio com a "Deidade Principal". Foi preciso o avô dos deuses vir à Terra para pôr fim à guerra, devolvendo Tara ao marido. Quando a mulher deu à luz um filho, "cuja beleza superava a dos celestiais", os deuses, desconfiados, "exigiram saber quem era o verdadeiro pai do menino: o marido legítimo ou o deus raptor". Tara então anunciou que o bebê era filho de Soma, a "Imortalidade Celestial", e lhe deu o nome de Budah. No entanto, esse envolvimento dos deuses nos assuntos dos homens foi algo que só aconteceu depois de muito tempo: em épocas mais primitivas, eles guerreavam entre si por causas mais importantes, como a supremacia, o governo da Terra e a administração de seus recursos naturais. Devido à grande quantidade de filhos de Kasyapa com uma série de esposas e concubinas, mais os descendentes dos outros deuses, o conflito era inevitável. O domínio dos Adityas irritava especialmente os Asuras, deuses mais velhos, gerados por Kasyapa com outras mulheres antes de os Adityas nascerem. Tendo nomes não arianos, com clara origem no Oriente Médio (lembrando as divindades supremas da Assíria, da Babilônia e do Egito: Assur, Asar, Osíris), esses Asuras acabaram assumindo, nas tradições hindus, o papel de deuses malignos ou "demônios". A inveja, rivalidade e outros motivos para atrito acabaram resultando em guerra quando a Terra, "que de início produzia alimentos sem necessidade de cultivo", foi assolada por uma escassez geral, que trouxe a fome. Os deuses sustentavam sua imortalidade bebendo o Soma, uma ambrósia que era trazida da Morada Celestial e ingerida misturada ao leite. O gado que eles criavam também lhes fornecia a carne para os "sacrifícios" ou os assados que tanto apreciavam. Com a escassez, as dificuldades começaram a surgir. O Satapatha Brahmana descreve os eventos que se seguiram:
Os deuses e os Asuras, nascidos do Pai dos Deuses e Homens, combateram pela superioridade. Os deuses venceram os Asuras, mas, mais tarde, estes voltaram para perturbá-los... Os deuses e os Asuras, nascidos do Pai dos Deuses e Homens, estavam novamente combatendo pela superioridade. Dessa vez os deuses encontraram a derrota. Os Asuras pensaram: "A nós, sem dúvida, pertence este mundo!". Em seguida disseram: "Então dividamos este mundo entre nós. Feito isso, nele subsistiremos". Conseqüentemente, começaram a dividir o mundo do Ocidente ao Oriente. Ao tomarem conhecimento do que estava acontecendo, os Adityas foram pedir aos irmãos que lhes dessem parte dos recursos da Terra. Quando ouviram isso, os deuses disseram: "Os Asuras estão mesmo dividindo esta Terra! Venham, vamos até onde eles estão fazendo a partilha, pois o que será de nós se não conseguirmos nossa parte da Terra"? Colocando Vishnu à frente, eles foram até os Asuras.
Arrogantes, os Asuras ofereceram aos Adityas apenas a porção da Terra que pudesse ser coberta pelo corpo de Vishnu quando ele estivesse deitado. Mas os deuses empregaram um estratagema. Puseram Vishnu num "recinto fechado" que podia "andar em três direções", e assim conseguiram recuperar três das quatro regiões da Terra. Os Asuras, frustrados, iniciaram um ataque a partir do sul. Os deuses perguntaram a Agni "como poderiam vencê-las para sempre". Agni sugeriu uma manobra em formato de pinça: "Darei a volta pelo norte, e vocês avançarão sobre eles daqui; quando os fecharmos, os arrasaremos". Segundo está registrado no Satapatha Brahmana, depois de vencerem os Asuras "os deuses estavam ansiosos, preocupados em como poderiam reabastecer-se para seus sacrifícios". Muitos trechos dos textos antigos que relatam essa batalha falam da recaptura do gado e da volta do fornecimento do Soma. Essa guerra ocorreu em terra, no ar e no fundo do mar. Os Asuras, segundo o Mahabharata, construíram fortalezas de metal no céu, de onde atacavam as três regiões da Terra. Seus aliados podiam ficar invisíveis e usavam armas também invisíveis; alguns deles atacavam de uma cidade submarina que tinham capturado dos deuses. Quem mais se distinguiu nessa guerra foi Indra ("Tempestade"), que destruiu 99 fortalezas terrestres dos Asuras, matando um grande número de seus seguidores. Nos combates aéreos ele usou um carro voador para lutar com os inimigos que se escondiam em "fortalezas de nuvens". Os hinos dos Rigveda citam grupos de deuses e deidades individuais derrotadas por Indra (R. T. Griffith, The Hymns oficial the Rig-Veda):
Matas com teu raio os Sasyu... Longe do assoalho do céu, em todas as direções, os antigos, sem ritos, fugiam para a destruição... Os Dasyu queimaste dos céus. Eles se envolveram em batalha com o exército dos sem culpa; então os Navagvas lançaram todo seu poderio. Como emasculados em combate com homens, eles fugiram tomando trilhas íngremes, escapando da presença de Indra. Indra invadiu as fortalezas de Ilibsa e com seus chifres cortou Sushna em pedaços...
Mataste teu inimigo com teu trovão... A arma de Indra, feroz, abateu-se sobre os inimigos, e com seu agudo estampido ele fez suas cidades em pedaços. Intrépido, vais de luta em luta, destruindo castelo após castelo com tua força. Tu, Indra, com teu amigo que faz o inimigo se curvar, afastas para longe os astuciosos Namuchi. Levaste à morte Karanja, Parnaya... Destruíste as cem cidades de Vangrida.
Os cumes do altíssimo céu sacudiste quando sozinho, ousaste exterminar Sambara.
Depois de vencer os inimigos, tanto em batalhas como em combates individuais, fazendo-os "fugirem para a destruição", Indra voltou sua atenção para a libertação do gado dos deuses. Os "demônios" o haviam escondido no interior de uma montanha, onde ficavam guardados por Vala ("O que Cerca"). Auxiliado pelos Angirases, deuses jovens que podiam emitir chamas divinas, Indra irrompeu no esconderijo e soltou os animais. Alguns estudiosos, como J. Herbert em Hindu Mythology, afirmam que o objetivo de Indra era libertar ou recuperar um Raio Divino, e não o gado, pois a palavra sânscrita go serve para designar as duas coisas. No início dessas guerras, os Adityas designaram Agri ("Ágil") para ser o Hotri, ou seja, o chefe das operações. Com o passar do tempo - alguns textos sugerem que o conflito durou mais de mil anos -, Vishnu ("O Ativo") assumiu o cargo. No entanto, com o fim das hostilidades, Indra, que tanto se distinguira nas batalhas, exigiu a supremacia. Tal como na Teogonia dos gregos, um de seus primeiros atos foi matar o próprio pai. O Rigveda (Livro IV; 18,12) pergunta ao jovem deus: "Indra, quem fez de tua mãe uma viúva?". A resposta vem também em forma de pergunta: "Que deus estava presente na refrega quando mataste teu pai, agarrando-o pelo pé?". Para castigar Indra pelo seu nefando crime, os deuses proibiram-no de beber o Soma, pondo em perigo sua imortalidade, e "ascenderam aos céus" deixando o irmão com o gado que recuperara. Mas Indra foi atrás deles "com a arma do trovão erguida". Temerosos, os deuses gritaram: "Não atire!", e concordaram em deixá-lo compartilhar dos alimentos divinos. Indra conquistou a Liderança, mas houve quem o desafiasse. O contestador foi Tvashtri, que em alguns hinos é chamado "primogênito", o que pode explicar por que ele se achava no direito de reivindicar a posição. Rapidamente Indra exterminou-o com a arma-trovão, a mesma que ganhara de presente dele. A luta, contudo, foi retomada por Vritra ("O Obstrutor"), que alguns textos dizem ser o primogênito de Tvashtri, mas vários eruditos o vêem como um monstro artificial, pois em pouco tempo ele atingiu um tamanho imenso. Nos primeiros combates Indra levou a pior e fugiu para um canto distante da Terra. Todos os deuses o abandonaram, exceto os Maruts, um grupo de 21 condutores que pilotavam os carros voadores mais ligeiros, "que rugem como o vento e fazem sacudir as rochas das montanhas quando sobem".
Essas verdadeiras maravilhas, de tons avermelhados, Aceleram-se em seu curso como um rugido, sobrevoando os cumes do céu... Espalham-se como fachos de luz... Brilhantes, celestiais, como raios em suas mãos e capacetes de ouro na cabeça. Contando com o apoio dos Maruts, Indra voltou a combater Vritra. Os hinos que descrevem as lutas, em termos entusiasmados, podem ser encontrados em Original Sanskrit Text, de J. Muir.
O valente deus em seu carro ascende, levado por sua fervente velocidade. Para o céu o herdi avança. Os Maruts, impetuosos espíritos da tempestade, formam sua escolta. Eles viajam em carros-relâmpagos e cintilam em guerreira pompa e orgulho... Suas vozes ressoam como urros de leões, seus dentes consomem com força de ferro. Os morros, a própria Terra eles sacodem, em seu avanço fazem estremecer todas as criaturas.
Enquanto a terra tremia e as criaturas corriam para se esconder, Vritra observava calmamente a aproximação de seus inimigos:
Empoleirada a grande altura, brilhava a imponente fortaleza de Vritra. No alto da muralha, em atitude marcial, o valente e gigantesco demônio esperava, confiante em suas artes mágicas e armado com um arsenal de dardos de fogo.
"Sem alarme, desafiando o poder da arma de Indra", sem medo "dos terrores do vôo mortal", Vritra continuou esperando.
Então formou-se uma visão aterradora quando deus e demônio engalfinharam-se em luta. Vritra lançou seus dardos afiados, raios e relâmpagos escaldantes, que atirava como chuva espessa, o deus desafiava sua cólera; as armas eram lançadas contra Indra em vão, passando de lado.
Quando Vritra gastou todos os seus mísseis, Indra pôde partir para a ofensiva:
Então os raios começaram a cintilar, luminosos trovões a estourar, por Indra orgulhosamente arremessados. Os próprios deuses imobilizaram-se, apavorados; o terror apoderou-se do mundo universal...
Os raios atirados por Indra, "forjados pela mão de mestre de Tvashtri" a partir de ferro divino, eram mísseis complexos, fulgurantes:
Descarregados pela vermelha mão direita de Indra, os raios com cem juntas, as lanças de ferro com mil pontas, que ardem e sibilam por todo o céu. Rápidos, sem erro, voam para o alvo e fazem curvar o mais orgulhoso dos inimigos. Seu simples som põe em fuga os tolos que ousam desafiar o poder do Trovejador. Os mísseis teleguiados atingiram o alvo:
E logo o dobrar dos sinos da condenação de Vritra soou impulsionado pelo clamor da chuva de ferro de Indra. Perfurado, pisoteado, esmagado, com um horrível grito, o demônio moribundo caiu de sua torre feita de nuvens.
Depois de cair "como troncos de árvores derrubados pelo machado", Vritra jazia, prostrado. No entanto, embora estivesse "sem pés e sem mãos, continuou desafiando Indra". Este então desferiu o golpe de misericórdia - "exterminou-o atirando um raio entre seus ombros". Indra venceu, mas o destino não quis que os frutos da vitória fossem apenas dele. Quando reivindicava o trono de Kasyapa, seu pai, surgiram dúvidas sobre sua verdadeira origem. Todos sabiam que sua mãe o escondera da cólera de Kasyapa por ocasião de seu nascimento. Por que isso? Existiria um fundo de verdade nos boatos que afirmavam que seu próprio irmão mais velho Tvashtri era seu verdadeiro pai? Os Vedas não erguem totalmente o véu do mistério. No entanto, contam que Indra, apesar de ser um grande deus, não governou sozinho. Ele teve de dividir seus poderes com Agni e Surya, seus irmãos, exatamente como Zeus teve de repartir os domínios com Hades e Poseidon. October 21 Capítulo 22 A CONTENDA ENTRE HÓRUS E SET
Os essênios previram que na Guerra Final entre os homens, a Companhia do Divino se aliaria à Congregação dos Mortais e nos campos de batalha se mesclariam "gritos de guerra de homens e deuses". Seria isso apenas um triste comentário sobre a história sangrenta das guerras da humanidade? Nada disso. O que o texto A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas nos informa é apenas que as contendas entre os homens terminarão exatamente como iniciaram: com deuses e mortais lutando lado a lado. Por mais incrível que pareça, existe um documento que descreve a primeira guerra em que os deuses envolveram os mortais. Trata-se de uma inscrição nas paredes do grande templo de Edfu, uma antiga cidade sagrada do Egito, dedicada ao deus Hórus. Foi lá, segundo as tradições do Antigo Egito, que Hórus instalou uma fundição de "ferro divino" e onde guardava, num recinto especial, o Disco Alado em que percorria os céus. Um dos textos diz: "Quando as portas da fundição se abrem, o Disco se eleva". A inscrição no templo de Edfu, notável por sua exatidão geográfica, começa com uma data - não relacionada com a contagem de tempo da humanidade - e fala de eventos ocorridos muito antes da época dos faraós, quando o Egito era governado pelos deuses.
No ano 363, Sua Majestade, Ra, o Santo, o Falcão do Horizonte, O Imortal Eterno, foi à terra de Khenn. Com ele estavam seus guerreiros, pois os inimigos tinham conspirado contra seu senhor no distrito que ainda hoje tem o nome de Ua-Ua. Ra foi até lá em seu barco, junto com seus companheiros, e desceu no distrito da Sede do Trono de Hórus, na parte ocidental desse distrito, ao leste da Casa de Khennu, que desde então passou a ser chamada de Khennu Real. Hórus, o Medidor Alado, aproximou-se do barco de Ra e disse a seu ancestral: "Ó, Falcão do Horizonte, tenho visto os inimigos conspirarem contra vós, Senhor, para se apoderarem da Coroa Luminosa".
Em poucas palavras, o escriba conseguiu nos dar um panorama geral da situação e criar a cena para a guerra que iria estourar. Entendemos que a causa do conflito era uma conspiração de certos "inimigos" dos deuses Ra e Hórus, que pretendiam conquistar a Coroa Luminosa, ou seja, a soberania. É óbvio que essa pretensão só podia partir de um outro deus dos deuses. Para sufocar a conspiração, Ra reuniu seus guerreiros e tornou seu barco para ir ao local onde Hórus estabelecera seu quartel-general. O "barco" de Ra, como sabemos a partir de muitos outros textos, era uma embarcação celestial, com o qual o deus podia viajar aos céus mais distantes. Nesse caso, Ra usou-o para descer num lugar distante de qualquer tipo de extensão de água, "na parte ocidental" do distrito de Da-Da, ao leste da "Sede do Trono" de Hórus. Este, então, contou-lhe que o inimigo estava reunindo suas forças:
Então Ra, o Santo, o Falcão do Horizonte, disse a Hórus, o Medidor Alado: "Altíssimo rebento de Ra, meu escolhido, vá rápido, extermine o inimigo que você avistou". Obedecendo a ordem, Hórus partiu no Disco Alado para enfrentar o inimigo. E assim Hórus, o Medidor Alado, voou para o horizonte no Disco Alado de Ra e, por isso, desde esse dia é chamado de "Grande Deus, Senhor dos Céus". Voando no Disco Alado, Hórus avistou as forças inimigas e atacou-as com uma arma poderosa: Dos céus, do Disco Alado, ele viu os inimigos e atacou-os pela retaguarda. De sua parte dianteira lançou sobre eles uma Tempestade que não podiam ver com os olhos nem escutar com os ouvidos. Isso trouxe morte a todos num único instante; ninguém se salvou. Cumprida a missão. Hórus voltou para junto de Ra ainda viajando no Disco Alado, "que brilhava com muitas cores" e ouviu sua vitória ser oficializada por Thot, o deus das artes mágicas: Então Hórus, o Medidor Alado, reapareceu no Disco Alado que brilhava com muitas cores; ele voltou para o barco de Ra, o Falcão do Horizonte. E Thot disse: "Ó, Senhor dos Deuses! O Medidor Alado voltou no grande Disco Alado, brilhando em muitas cores...". Por isso, desde esse dia ele também é conhecido como "O Medidor Alado", e em sua honra a cidade de Hut passou a ser chamada de Behutet.
Essa primeira batalha entre Hórus e os "inimigos" teve lugar no Alto Egito. Heinrich Brugsch, o primeiro a publicar o texto dessa inscrição, o que aconteceu por volta de 1870 (Die Sage von dergeflüten Sonnenscheibe), sugeria que a "Terra de Khenn" seria a Núbia e que Hórus avistou o inimigo em Siena, a atual Assuã. Estudos mais recentes, como Egypt in Nubia, de Walter B. Emery, concordam que Ta-Khenn era mesmo a Núbia e que Da-Da era o nome de sua parte norte, a área entre a primeira e a segunda catarata do Nilo. (A parte sul da Núbia era chamada de Kuch.) Essa identificação é válida, já que Behutet, a cidade concedida a Hórus como prêmio por sua vitória, era a mesma Edfu, que através dos tempos sempre foi dedicada a esse deus. As tradições afirmam que Hórus estabeleceu em Edfu uma fundição onde eram forjadas armas especiais feitas de "ferro divino". E foi lá também que ele treinou um exército de mesniu - "povo de metal". Nas paredes do templo dessa cidade, esses guerreiros foram retratados como homens de cabeça raspada, usando túnicas curtas de colarinhos largos e carregando armas nas duas mãos. O desenho de uma arma não identificada, parecida com um arpão, foi incluído nas palavras hieroglíficas para "ferro divino" e "povo de metal" . Ainda segundo as tradições egípcias, os primeiros homens a receber armas de metal dos deuses foram os mesniu. E veremos, com os prosseguimentos do texto, que eles foram também os primeiros mortais convocados para lutar nas guerras entre os deuses. Como a área Assuã e Edfu agora estava garantida, e Hórus tinha seus guerreiros armados e treinados, os deuses sentiram-se prontos para avançar em direção ao norte, penetrando no interior do Egito. As vitórias iniciais parecem ter servido para fortalecer a aliança entre esses aliados, pois ficamos sabendo que a deusa asiática Ishtar (o texto egípcio a chama pelo seu nome cananeu, Astarot) juntara-se ao grupo. Pairando no céu, Hórus gritou para Ra se encarregar do reconhecimento do terreno abaixo dele:
E Hórus disse: "Avance, ó, Ra! Procure os inimigos que jazem sobre a terra”! Então Ra, o Santo, avançou; Astarot estava com ele. Ambos procuraram o inimigo no terreno, mas todos eles estavam escondidos. Como não podia ver o adversário, Ra teve uma idéia: E Ra disse aos deuses que o acompanhavam: "Guiemos nossa embarcação até a água, pois o inimigo está em terra...". Então deram às águas o nome de "Águas Viajadas", e assim elas são conhecidas até hoje. Mas enquanto Ra possuía um veículo anfíbio, Hórus não tinha como entrar no rio. Então os deuses lhe deram um barco, ao qual deram o nome de Mak-A ("O Grande Protetor"), e assim ele é conhecido até hoje. Seguiu-se a primeira batalha entre os mortais: Mas os inimigos também entraram na água, fingindo-se de crocodilos e hipopótamos, e atacaram o barco de Ra, o Falcão do Horizonte... Hórus, o Medidor Alado, chegou com seus criados, que lhe serviam de guerreiros, cada um com seu próprio nome, carregando o Ferro Divino e uma corrente nas mãos, e eles afugentaram os crocodilos e os hipopótamos. Arrastaram 651 inimigos até aquele lugar; eles foram mortos perto da cidade. E Ra, o Falcão do Horizonte, disse a Hórus, o Medidor Alado: "Que este local seja conhecido como o lugar onde ficou estabelecida sua vitória sobre as terras do sul”! Tendo vencido o inimigo no céu, na terra e na água, o triunfo de Hórus parecia completo. Thot achou que era o momento de comemorar: Então Thot disse aos outros deuses: "Ó, deuses do céu, rejubilem-se! Ó, deuses da terra, rejubilem-se! O jovem Hórus trouxe a paz por ter conseguido realizar feitos extraordinários nesta campanha”! Nessa ocasião, o Disco Alado foi adotado como o emblema de Hórus vitorioso: Desde esse dia existem os símbolos de metal de Hórus. Foi ele que confeccionou como seu emblema o Disco Alado, que colocou na parte dianteira do barco de Ra. A deusa do norte e a deusa do sul, representadas por duas serpentes, foram colocadas uma em cada lado. E Hórus posicionou-se no barco de Ra, atrás do emblema, tendo nas mãos o Ferro Divino e a corrente.
Apesar de Thot ter proclamado Hórus como aquele que trouxera a paz, ela ainda não fora alcançada. Prosseguindo em seu avanço para o norte, a companhia dos deuses "avistou dois brilhos numa planície ao leste de Tebas. Ra então disse a Thot: 'Esse é o inimigo; que Hórus o elimine...'. E Hórus fez um grande massacre". Novamente, com o auxílio do exército de homens que armara e treinara, Hórus conseguiu conquistar a vitória. E Thot continuou dando nomes aos locais onde as batalhas bem-sucedidas haviam se desenrolado. O primeiro combate aéreo de Hórus tinha rompido as defesas que separavam o Egito da Núbia em Siena (Assuã). As batalhas seguintes, tanto em terra como na água, garantiram ao deus a curva do Nilo que vai de Tebas até Dendera, local onde, no futuro, proliferariam templos e cidades reais. Agora estava aberto o caminho para o interior do Egito. Por vários dias os deuses continuaram avançando rumo ao norte - Hórus vigiando do alto, no Disco Alado, e Ra e seus companheiros navegando pelo rio, enquanto o povo de metal guardava os flancos em terra. Houve então uma série de combates, breves, mas ferozes. Os nomes dos locais - bem estabelecidos na geografia do Antigo Egito - indicam que os deuses atacantes atingiriam a área dos lagos que, na Antiguidade, iam desde o Mediterrâneo até o mar Vermelho (atualmente ainda restam alguns deles).
Então os inimigos se distanciaram deles, dirigindo-se para o norte. Eles acamparam no distrito das águas, diante do mar Mediterrâneo. Seus corações estavam cheios de medo. Mas Hórus, o Medidor Alado, perseguiu-os no barco de Ra, levando na mão o Ferro Divino. E seus ajudantes, carregando armas de ferro forjado, estavam por todos os lados. No entanto, a tentativa de cercar e capturar os inimigos não foi bem-sucedida. Por quatro dias e quatro noites Hórus percorreu as águas em perseguição aos inimigos, mas não conseguiu avistar nenhum deles. Ra então aconselhou-o a subir novamente no Disco Alado, e dessa vez Hórus avistou os inimigos em fuga. Hórus atirou sua Lança Divina contra eles e causou grande confusão em suas fileiras, matando muitos deles. Também trouxe 142 prisioneiros, que colocou na parte dianteira do barco de Ra, onde foram rapidamente executados.
Nesse ponto a inscrição no templo de Edfu termina e recomeça num novo painel. De fato, inicia-se um novo capítulo da Guerra dos Deuses.
Os inimigos que conseguiram escapar "foram para o Lago do Norte, dirigindo-se para o Mediterrâneo, que tentavam atingir navegando pelo distrito das águas. Mas o deus encheu seus corações de medo e, quando atingiram o meio das águas, eles fugiram para as águas que se ligam com os lagos do distrito de Mer, com o propósito de se juntarem aos inimigos que estavam nas terras de Set".
Esses versos nos oferecem mais que informações geográficas, pois, pela primeira vez, encontramos uma identificação dos "inimigos". A arena do conflito agora era o conjunto de lagos que, na Antiguidade, separava o Egito propriamente dito na península do Sinai. Para o leste, além dessa barreira de água, ficavam os domínios de Set adversário e assassino de Osíris, pai de Hórus. Portanto, Set era o inimigo sobre cujas forças Hórus vinha avançando, vindo do sul.
Com a fuga dos inimigos houve uma calmaria no conflito, e durante esse período Ra chegou à região que separava o Egito do país de Set, e Hórus levou seu povo de metal à linha de frente. Mas o adversário também teve tempo para reagrupar suas forças e voltou a atravessar a barreira de água, entrando no Egito. Seguiu-se então uma grande batalha, na qual 381 inimigos foram capturados e executados.
(Os textos não fazem referência ao número de baixas no lado de Hórus).
Hórus, no calor da perseguição, atravessou as águas, e entrou nos domínios de Set. Este, furioso com a invasão, desafiou-o para um combate pessoal.
As lutas entre os dois deuses, que transcorreram tanto em terra como no ar, foram tema de inúmeras lendas, e falarei delas mais adiante. Nesta altura, porém, é interessante analisarmos o aspecto salientado por E. A. Wallis Budge em The Gods of the Egyptians: no primeiro envolvimento dos homens nas guerras dos deuses, o que trouxe a vitória a Hórus foi o fato de ele ter armado os mortais com o Ferro Divino. "Está bem claro que ele deveu seu êxito, sobretudo à superioridade das armas que seus homens portavam e ao material de que eram feitas”. Portanto, segundo os textos egípcios, foi nessa guerra dos deuses que o homem aprendeu a levantar a espada contra seu semelhante. Quando os combates terminaram, Ra expressou sua satisfação pelos feitos do "povo de metal de Hórus" e decretou que dali em diante aqueles homens morariam em santuários e seriam servidos com libações e oferendas, porque haviam matado os inimigos do deus Hórus. Assim, esses mesniu estabeleceram-se nas duas capitais de Hórus: Edfu, no Alto Egito, e Tis (Tânis, em grego; Zoan, na Bíblia), no Baixo Egito. Com o passar do tempo, eles abandonaram seu papel puramente militar e ganharam o titulo de Shamsu-Hor ("Atendentes de Hórus"), passando a servir como assessores e emissários dos deuses. Segundo os estudiosos, a inscrição nas paredes do templo de Edfu é uma cópia de um texto bem mais antigo e muito conhecido dos escribas. No entanto, ninguém ainda foi capaz de determinar quando o relato original foi escrito. Os peritos concluíram que a exatidão dos dados geográficos e outros indicam (nas palavras de E. A. Wallis Budge) "que não estamos lidando com eventos puramente mitológicos; é quase certo que o triunfante avanço atribuído a Hor-Behutet (Hórus de Edfu) é baseado nos feitos de algum invasor aventureiro que se estabeleceu em Edfu em tempos muito primitivos". Como acontece em todas as inscrições egípcias, essa também começa com uma data: "No ano de 363...". Essas datas sempre indicam o ano do período de reinado do faraó envolvido no evento descrito. Assim, cada governante tinha seu primeiro ano de reinado, o segundo, e assim por diante. No entanto, o texto em questão trata de assuntos divinos, e não de atividades de reis, portanto relata acontecimentos que tiveram lugar no "ano 363" do reinado de um certo deus, ou deuses, levando-nos de volta a tempos primitivos em que o Egito era governado por deuses e não por homens. As tradições do Antigo Egito nunca deixaram dúvida de que houve realmente uma época como essa. Durante sua longa viagem pelo Egito, o historiador grego Heródoto (século 5 a.C.) recebeu informações detalhadas sobre reinos e dinastias faraônicas. "Os sacerdotes me contaram que Mên foi o primeiro rei do Egito; ele construiu o dique que protege Mênfis das inundações do Nilo”. Depois de fazer o desvio do rio, o faraó começou a construir a cidade nas terras tomadas das águas. Heródoto prossegue: "Além dessas obras, segundo os sacerdotes, ele construiu o templo de Vulcano, que fica dentro da cidade, um imenso edifício, digno de ser mencionado". O historiador acrescenta: "Em seguida, os sacerdotes foram buscar um papiro e leram para mim os nomes de 330 monarcas que ocuparam o trono depois de Mên. Entre eles, dezoito eram reis etíopes, e havia uma rainha, que era nativa; todos os outros eram homens e egípcios". Os informantes de Heródoto também lhes mostraram fileiras de estátuas representando faraós e lhes contaram vários pormenores sobre esses governantes, afirmando que possuíam ancestrais divinos. "Os seres representados por essas imagens estavam muito longe de ser divinos", duvidou Heródoto, mas escreveu:
Em épocas anteriores a situação era bem diferente. O Egito era governado por deuses que habitavam a Terra junto com os homens, e um deles sempre exercia a supremacia sobre os restantes. O ultimo desses deuses foi Hórus, filho de Osíris, a quem os gregos chamavam Apolo. Hórus depôs Tífon e então reinou sobre o Egito.
Em seu livro Contra Apião, o historiador judeu Flávio Josefo, do século I, citou os escritos de um sacerdote egípcio chamado Manetho como uma de suas fontes sobre a História do Egito. Esses textos jamais foram encontrados, mas qualquer dúvida que pudesse haver sobre a existência de tal sacerdote desfez-se quando os estudiosos descobriram que sua obra serviu de base para vários autores gregos. Atualmente acredita-se que Manetho (o nome, em hieróglifos, significa "Presente de Thot") tenha sido realmente o alto sacerdote e grande erudito que, por volta de 270 a.C., compilou a história do Egito em diversos volumes, por ordem do rei Ptolomeu Filadelfo. O manuscrito original encontrava-se na Biblioteca de Alexandria quando, junto com numerosos outros documentos de valor incalculável, foi consumido pelo fogo por ocasião do incêndio provocado por conquistadores muçulmanos no ano de 642. Manetho foi o primeiro historiador a dividir os governantes egípcios em dinastias, prática que continua até hoje. Sua Lista de Reis - nomes, duração dos reinados, ordem de sucessão e outras informações pertinentes - foi preservada principalmente por meio das obras de Julio Africano (século 3) e Eusébio de Cesaréia (século 4). Essas e outras versões baseadas no historiador egípcio trazem como ponto comum que o primeiro governante da primeira dinastia foi o rei Mên (Menés, em grego) - o mesmo que Heródoto citou, com base nas próprias investigações no Egito. Esse fato foi confirmado por descobertas mais modernas, como a Tábua de Abidos, em que o faraó Seti I, acompanhado de seu filho, Ramsés II, listou o nome de 75 de seus antecessores. O primeiro deles é Mena. Se Heródoto estava correto ao citar as dinastias dos faraós egípcios, teria ele acertado também quanto à existência de uma "época precedente", quando o Egito era governado por deuses? Manetho corrobora as afirmações de Heródoto quanto a essa questão. Segundo ele, as dinastias dos faraós foram precedidas por outras quatro: duas de deuses, uma de semi-deuses e uma outra de transição. Primeiro, sete grandes deuses reinaram sobre o Egito, perfazendo um total de 12 300 anos.
A segunda dinastia de deuses, escreveu Manetho, compreendeu doze governantes, dos quais o primeiro foi Thot. Eles reinaram por 1570 anos. Portanto, no conjunto, dezenove deuses governaram por 13 870 anos. Seguiu-se uma dinastia de trinta semi-deuses, que reinaram por 3650 anos; ao todo, houve 49 governantes divinos e semi-divinos no Egito, que reinaram por 17250 anos no total. Depois, durante um período de 350 anos não existiu um governante único reinando sobre o Egito como um todo. Foi uma época caótica em que dez reis humanos deram prosseguimento à monarquia na cidade de This. Então veio Mên, que estabeleceu a primeira dinastia dos faraós e construiu uma nova capital que dedicou ao deus Ptah - o "Vulcano" de Heródoto. Um século e meio de descobertas arqueológicas e a decifração da escrita hieroglífica convenceram os estudiosos de que as dinastias faraônicas começaram por volta de 3100 a.C. com um governante cujo hieróglifo lê-se como Mên. Ele unificou o Alto e o Baixo Egito e estabeleceu sua capital numa nova cidade chamada Men-Nefer ("A Beleza de Mên") - Mênfis, em grego. Como indicara Manetho, esse faraó subiu ao trono de um Egito reunificado depois de um período caótico de total desunião. Uma inscrição no artefato conhecido como a Pedra de Palermo preservou para os arqueólogos pelo menos nove nomes arcaicos de reis que usavam apenas a coroa vermelha do Baixo Egito e reinaram antes de Menés. Também foram encontradas algumas tumbas e objetos pertencentes a esses governantes arcaicos - "Escorpião", Ka, Zeser, Narmer e Sma. Sir Flinders Petrie, o famoso egiptólogo, afirmou em The Royal Tombs of The First Dynasty e em outras obras que esses nomes são os mesmos que Manetho relacionou como os dez humanos que reinaram em Tânis durante os séculos de caos e sugeriu que esse grupo, por ter precedido a primeira dinastia, fosse chamado de Dinastia Zero. Um importante documento arqueológico que trata da monarquia egípcia, conhecido como o Papiro de Turim, começa com uma dinastia de deuses que inclui Ra, Geb, Osíris, Set e Hórus, depois assinala outra, com Thot, Maat e outros, atribuindo a Hórus um reinado de trezentos anos - exatamente como registrou Manetho. Depois dos governantes divinos, esse papiro, que data da época de Ramsés li, relaciona 38 reis semi-divinos: "Dezenove chefes da Muralha Branca e dezenove Veneráveis do Norte". E, entre eles e Mên, situa reis humanos que governaram sob a tutela de Hórus e cujo epíteto era Shamsu-Hor! Em 1843, dirigindo-se à Royal Society of Literature em Londres, o curador de Antiguidades Egípcias no Museu Britânico, Dr. Samuel Birch, anunciou que contara no Papiro de Turim um total de 330 nomes - número que "coincidia com os 330 reis mencionados por Heródoto". Embora com algumas discordâncias entre si em relação a detalhes, os egiptólogos da atualidade aceitam que as descobertas sustentam as informações fornecidas pelos historiadores antigos a respeito das dinastias que tiveram início com Menés depois de um período de caos, quando cerca de dez reis governaram um Egito desunido. E mais: que antes disso houve um período em que o reino estava unido sob governantes cujos nomes só podiam ser Hórus, Osíris etc. No entanto, os estudiosos que acham difícil acreditar na natureza divina desses reis sugerem que deviam ser apenas seres humanos "deificados". Com o intuito de lançar uma luz sobre o assunto, comecemos pelo mesmo lugar que Menés escolheu para construir a capital do Egito reunificado. A localização de Mênfis não foi obra do acaso, mas uma escolha apoiada em certos eventos ligados aos deuses. Menés erigiu-a sobre um aterro, resultado do desvio do rio Nilo e de uma série de obras de represamento e recuperação de terras. Ao fazê-lo, imitava o modo como o próprio Egito havia sido criado. Os egípcios acreditavam que "um grande deus que surgira nos tempos mais primitivos" havia chegado àquela terra e a encontrara sob a água e a lama. Ele fez grandes obras de represamento e recuperação de terras, literalmente erguendo o Egito das águas - o que explica o outro antigo nome do Egito: "Terra Elevada". Esse deus arcaico chamava-se Ptah, um "Deus do Céu e da Terra", e era considerado um grande engenheiro e mestre artífice. A veracidade da lenda da Terra Elevada é favorecida pelos aspectos tecnológicos. O Nilo é um rio tranqüilo e navegável até Siena (Assuã), mas depois seu curso torna-se traiçoeiro e é obstruído por várias cataratas. Atualmente o nível do rio é regulado pela represa de Assuã, e tudo indica que em tempos pré-históricos havia um sistema de comportas similar. As lendas contam que Ptah estabeleceu sua base de operações na ilha de Abu, que desde a época dos gregos é chamada de Elefantina, devido ao seu formato. Ela fica localizada logo acima da primeira catarata do Nilo, na atual Assuã. Nos textos e desenhos, Ptah, cujo símbolo era uma serpente, aparece controlando as águas do Nilo a partir de cavernas subterrâneas. "Era ele que tomava conta das portas que continham as inundações, que puxava as trancas na hora adequada.” Em linguagem técnica, somos informados de que, no local mais apropriado do ponto de vista da engenharia, Ptah construiu "cavernas gêmeas" (dois reservatórios interligados) cujas comportas podiam ser abertas e fechadas, dessa forma regulando artificialmente o nível e a vazão das águas do Nilo. Em egípcio, Ptah e os outros deuses antigos eram chamados de Ntr - "Guardiões, Vigias". Segundo as tradições, eles vieram de Ta-Ur, em que Ur significava "antigo" ou "distante" - sendo então "Terra Distante", mas que poderia ser o verdadeiro nome do lugar, bem nosso conhecido devido aos registros mesopotâmicos e bíblicos: a antiga cidade de Ur, ao sul da Mesopotâmia. O estreito do mar Vermelho, que ligava a Mesopotâmia ao Egito, era chamado de Ta-Neter, o "Lugar dos Deuses". A afirmação de que os deuses primitivos teriam vindo das terras públicas de Sem é fortaleci da pelo intrigante fato de que os nomes desses deuses eram de origem semita, mais especificamente acadiana. Ptah, por exemplo, que não tinha significado em egípcio, nas línguas semitas queria dizer: "aquele que faz coisas abrindo e escavando". Com o passar do tempo - 9000 anos, segundo Manetho -, Ra, um filho de Ptah, tomou-se o governante do Egito. Seu nome também não tinha significado em egípcio, mas, como ele era associado a um corpo celeste luminoso, os eruditos acreditam que Ra poderia ser "brilhante". O que se sabe com certeza é que um dos apelidos desse deus - Tem - tinha a conotação semítica de "o Completo, o Puro". Os egípcios acreditavam que Ra chegara à Terra vindo do "Planeta de Milhões de Anos", viajando num Barco Celestial cuja parte superior, cônica, chamada Ben-Ben (Pássaro Piramidal) posteriormente foi preservada num santuário especial construído na cidade sagrada de Anu (a On da Bíblia, a Heliópolis dos gregos). Na época das dinastias, os egípcios faziam peregrinações a esse santuário para reverenciar o Ben-Ben e outras relíquias associadas a Ra e às viagens celestes dos deuses. Foi para reverenciar Ra, sob o apelido de Tem, que os egípcios forçaram os israelitas a construir a cidade que a Bíblia chama de Pitom (Pi-Tom, "O Portão de Tem"). Os sacerdotes de Heliópolis foram os primeiros a registrar as tradições dos deuses egípcios. Segundo eles, a primeira "companhia" de deuses, liderada por Ra, era constituída por nove "Guardiões" ele e mais quatro casais divinos. O primeiro casal, que começou a governar quando Ra se cansou de ficar no Egito, era formado pelos próprios filhos do deus: o rapaz Shu ("Secura") e a moça Tefnut ("Umidade"). Segundo as lendas, os dois tinham como principal tarefa ajudar o pai a controlar o Firmamento sobre a Terra. Shu e Tefnut estabeleceram o modelo para os faraós mortais que reinaram em épocas posteriores: o rei escolhia como consorte oficial a própria irmã. O primeiro casal foi sucedido por seus descendentes, novamente irmão e irmã: Geb ("Aquele que Empilha a Terra") e Nut ("O Firmamento Estendido"). A abordagem puramente mitológica das lendas egípcias sobre os deuses - que afirma que o povo observava a natureza e via "deuses" nos seus fenômenos - levou os estudiosos a imaginar que Geb representava a Terra deificada, e Nut, o Céu; e que os egípcios, ao chamarem Geb e Nut de pai e mãe dos deuses que reinaram depois deles, acreditavam que seus deuses tinham nascido da união do Céu e da Terra. No entanto, quando se lêem de uma forma mais literal as lendas e os versos contidos nos Textos das Pirâmides e no Livro dos Mortos, percebe-se que Geb e Nut tinham esses nomes devido a atividades relacionadas com o aparecimento periódico do pássaro Bennu, que deu origem à lenda grega da Fênix. Para os gregos, a Fênix era uma águia com penas vermelhas e douradas que morria e renascia a intervalos de vários milênios. Era para o Bennu das lendas egípcias - pássaro cujo nome era o mesmo do aparelho em que Ra chegara à Terra - que Geb envolvia-se com obras de terra e Nut "estendia o firmamento". Tudo indica que esses empreendimentos eram feitos na "Tem dos Leões", onde Geb "abriu a terra" para o grande objeto esférico que surgiu no horizonte vindo do "firmamento estendido". Geb e Nut acabaram entregando o governo do Egito a quatro de seus filhos: Asar ("O que Tudo Vê"), que os gregos chamam de Osíris, e sua irmã-esposa Ast mais conhecida como Ísis; Set e sua esposa Néftis (Nebt-Hat, a "Senhora da Casa"), a irmã de Ísis. A maioria das lendas egípcias gira em tomo das atividades desses quatro deuses. Mas, estranhamente, quando eles eram retratados, Set jamais aparecia sem seu disfarce animal: seu rosto nunca era visto. O significado do nome Set também desafia os egiptólogos, embora seja idêntico ao do terceiro filho de Adão e Eva. Com dois filhos casados com as próprias irmãs, os deuses Geb e Nut se defrontaram com um grave problema de sucessão. Então, a única solução era dividir o reino. Osíris recebeu as terras planas do norte (o Baixo Egito), e Set ficou com a região montanhosa ao sul (Alto Egito). O tempo que durou esse arranjo podemos apenas adivinhar, com base nas crônicas de Manetho, mas uma coisa é certa: Set não ficou satisfeito com a divisão do reino e tramou vários planos para conquistar a soberania sobre todo o Egito. Os estudiosos afirmam que o único motivo da insatisfação de Set era a ânsia de poder. No entanto, quando analisamos melhor as regras de sucessão dos deuses, entendemos o profundo efeito que elas exerceram sobre as questões divinas (e, mais tarde, sobre as dos reis humanos). Antigamente os deuses (e depois os homens) podiam ter uma ou mais concubinas, além da consorte oficial, o que resultava em filhos ilegítimos. Portanto, a primeira regra de sucessão era: o herdeiro do trono é o primogênito da consorte oficial. Se ela não tivesse filhos, o primeiro filho do rei com uma das concubinas seria o herdeiro. Porém, em qualquer época, mesmo que já houvesse um primogênito herdeiro, se o governante tivesse um filho com uma sua meia-irmã, este passaria à frente do primogênito e se tornaria o herdeiro legítimo. Esse costume sempre foi a causa básica das rivalidades entre os Deuses do Céu e da Terra e, acreditamos, explica os motivos da ira de Set. A fonte dessa nossa teoria é o tratado De Iside et Osiride (Sobre Ísis e Osíris), escrito por Plutarco, biógrafo e historiador do século I, que registrou para os gregos e os romanos da época as lendas dos deuses do Oriente Médio. Plutarco baseou-se em textos que, segundo a crença na Antiguidade, tinham sido escritos pelo próprio Thot, que na condição de Escriba dos Deuses encarregava-se do registro da história e dos feitos das divindades na Terra. "Agora contarei em breves palavras a história de Ísis e Osíris, conservando os aspectos mais significativos e omitindo os supérfluos", escreveu Plutarco na sentença de abertura, e em seguida passa a contar que Nut (os gregos a comparavam com sua deusa Rea) teve três filhos, sendo Osíris o primogênito, e Set, o terceiro. Ela também deu à luz duas filhas, Ísis e Néftis. Todavia, nem todos tinham sido gerados por Geb. Osíris e o segundo irmão eram filhos de Ra, que procurara sua neta Nut em segredo. Ísis, por sua vez, era filha de Thot (o deus grego Hermes), que, "apaixonado pela deusa mãe", retribuía de várias maneiras "para recompensar os favores que dela recebia". Então, o quadro era esse: o primogênito, Osíris, mesmo não sendo filho de Geb, tinha um direito à sucessão ainda maior pelo fato de ter sido gerado pelo grande Ra. Mas Set, pela primeira regra da sucessão era o herdeiro legítimo por ser filho de Geb, o governante, com sua meia-irmã, Nut. Como se isso já não fosse suficiente para criar a discórdia entre os irmãos, havia também uma feroz disputa entre os dois para garantirem o trono a seus respectivos herdeiros. Set, para conseguir o direito de sucessão a seus descendentes, precisaria gerar um filho com sua meia-irmã, Ísis. Já Osíris levava vantagem, pois tinha duas meias-irmãs, Ísis e Néftis, e, portanto maior probabilidade de gerar o herdeiro legítimo. Para cortar definitivamente a pretensão de Set de ter descendentes que governassem o Egito, Osíris apressou-se a tomar Ísis como sua consorte. Set então casou-se com Néftis, mas, como ela era sua irmã plena, por parte de pai e mãe, seus descendentes não seriam qualificados para a sucessão. A raiva de Set contra Osíris era profunda e amarga, pois este não só o privara do trono como também da possibilidade de vê-o ocupado por seus descendentes. Segundo Plutarco, a ocasião para a vingança de Set surgiu quando "uma certa rainha da Etiópia, chamada Aso", foi visitar o Egito. Conspirando com seus seguidores, Set ofereceu um banquete para homenagear a rainha e convidou todos os deuses. Como parte de sua trama, mandou construir um magnífico baú, grande o bastante para conter o corpo de Osíris. Durante a festa, pediu que trouxessem o baú para todos os presentes poderem admirá-lo. Depois, como se estivesse brincando, prometeu dá-lo à pessoa que coubesse perfeitamente dentro dele. Os convidados, ansiosos para ganhar aquela peça de arte, começaram a entrar, um de cada vez. Finalmente chegou a vez de Osíris. Assim que ele se acomodou dentro do baú, os conspiradores correram para perto dele, fecharam a tampa, prenderam-na com pregos e derramaram chumbo derretido sobre ela. Em seguida, levaram a enorme caixa com Osíris para a praia e, no lugar onde o Nilo deságua no Mediterrâneo, na cidade de Banis afundaram-na no mar. Vestida de luto e depois de cortar uma mecha dos cabelos em sinal de dor, Ísis saiu à procura do baú. Plutarco prossegue: "Finalmente ela recebeu notícias mais claras sobre o paradeiro da caixa, que fora levada pelas ondas até a costa de Biblos (o atual Líbano)". Encontrando o baú, a deusa retirou-o da água e escondeu-o num local isolado enquanto pensava num meio de ressuscitar o marido. Mas Set descobriu tudo, apoderou-se da enorme caixa e cortou o corpo de Osíris em catorze pedaços, que espalhou por todo o Egito. Novamente Ísis partiu, dessa vez em busca dos restos do marido. Algumas versões da lenda dizem que ela enterrou as partes onde as encontrou, dando início ao culto de adoração a Osíris nesses locais, que passaram a ser sagrados. Outras afirmam que Ísis juntou todos os pedaços e recompôs o corpo do marido, amarrando-o com tiras de linho, o que deu origem ao costume da mumificação. No entanto, todos os relatos concordam num ponto: Ísis encontrou todas as partes do corpo, menos uma - o falo. Porém, antes de enterrar o corpo, a deusa conseguiu extrair a "essência" de Osíris e se auto-inseminou com ela, concebendo Hórus. Assim que o menino nasceu, escondeu-o nos pântanos do Nilo para protegê-lo de Set. Os arqueólogos têm encontrado muitas lendas relacionadas com os eventos que se seguiram, textos copiados e recopiados pelos escribas, dos quais muitos foram capítulos do Livro dos Mortos ou foram usados como fonte para os versos dos Textos das Pirâmides. Reunidas, elas revelam um drama que envolveu manobras legais, seqüestros, uma ressurreição, homossexualidade e finalmente uma grande guerra - o conflito em que o prêmio foi o Divino Trono. Como tudo levava a crer que Osíris morrera sem deixar descendentes, Set viu-se diante da possibilidade de gerar um herdeiro legítimo, e para isso tramou forçar Ísis a se casar com ele. Seqüestrou a meia-irmã com a intenção de mantê-la prisioneira até obter seu consentimento. Ísis, contudo, conseguiu fugir com a ajuda de Thot. Uma versão da lenda registrada na Estela de Mettemich, composta como se fosse um relato pessoal da deusa, descreve sua fuga no meio da noite e as aventuras que enfrentou até chegar ao pântano de papiros onde Hórus estava escondido. Mas, ao deparar-se com o filho, viu-o agonizando devido a uma picada de escorpião. O povo que habitava os pântanos ouviu os gritos de aflição de Ísis e acorreu em seu socorro, mas não pôde fazer nada para ajudá-la. Então o auxílio veio de uma espaçonave:
Ísis lançou um grito ao céu, endereçando sua súplica ao Barco de Milhões de Anos. O Disco Celestial imobilizou-se e não saiu de onde estava. Então Thot desceu. Ele possuía poderes mágicos, o grande poder de transformar a palavra em realidade. E falou: "Ó, Ísis, deusa, gloriosa, conhecedora da boca; nenhum mal cairá sobre o menino Hórus, pois sua proteção vem do Barco de Ra”. “Cheguei no Barco do Disco Celestial vindo do lugar onde ele ontem se encontrava. Quando cair a noite, esta Luz expulsará o veneno, curando Hórus...” “Vim dos céus para salvar esta criança para sua mãe".
Salvo da morte por Thot e, como afirmam algumas lendas, imunizado para sempre das picadas de escorpiões, Hórus passou a ser citado como um Necht-atef, "Vingador de seu Pai". Recebendo a melhor das instruções dos deuses e deusas que tinham apoiado Osíris, treinado nas artes marciais por eles, sua aparência e atitudes condiziam com sua posição de Príncipe Divino, digno de ser membro da associação celestial. Então, num certo dia, ele apresentou-se diante do Conselho dos Deuses para reclamar o trono de Osíris. De todos os deuses que se surpreenderam com o aparecimento de Hórus, nenhum ficou mais chocado que Set. Mas a principal dúvida era: seria mesmo Osíris o pai daquele rapaz? Como descreve o texto conhecido como Papiro Chester Beatty no. 1, Set pediu um recesso para ter uma conversa particular e pacífica com o recém-descoberto sobrinho. Voltando-se para Hórus, disse: "Venha, passemos um dia feliz em minha casa". Mas ele não pensava em paz. Sua mente estava ocupada com tramas sinistras.
Ao anoitecer, a cama foi arrumada para eles, e os dois se deitaram. No meio da noite, Set fez seu membro endurecer e penetrar entre as nádegas de Hórus. Quando os deuses voltaram a se reunir em conselho, Set exigiu que o cargo de governante continuasse com ele, alegando que Hórus estava desqualificado. Quer fosse filho de Osíris, quer não, agora tinha sua semente dentro dele, o que podia lhe dar o direito de sucedê-lo, mas jamais de precedê-lo! Chegou a vez de Hórus surpreender os deuses. Explicou que, quando Set derramara seu sêmen, ele o pegara nas mãos. De manhã, fora procurar a mãe e lhe mostrara o que trazia, contando-lhe o que havia acontecido. Ísis o mandara endurecer o membro e derramar o próprio sêmen numa vasilha; em seguida, indo para a horta de Set, depositara-o numa alface que mais tarde havia servido de alimento para Set. "Portanto", anunciou Hórus, "a semente de Set não está dentro de mim, mas a minha está dentro dele”. “Logo, o desqualificado é Set”! Atônitos, os deuses pediram a Thot para resolver a questão. Ele verificou o sêmen que Hórus levara a Ísis e que ela guardara num pote, constatando que era mesmo de Set. Em seguida examinou o corpo de Set e confirmou que ele continha o sêmen de Hórus. Furioso, Set não esperou o fim das deliberações. Saiu gritando que só uma luta até o amargo fim poderia decidir aquela questão.
Pela contagem de Manetho, a essa altura Set reinava havia 350 anos. Se acrescentarmos a esse número o tempo que Ísis levou para encontrar os treze pedaços de Osíris - e acreditamos que tenha sido treze anos, - foi mesmo "no ano 363" do reinado de Set que Ra juntou-se a Hórus na Núbia para ajudá-lo em sua guerra contra "os inimigos". Em Horus, Royal God of Egypt, S. B. Mercer resumiu as opiniões dos estudiosos do assunto com estas enfáticas palavras: "A lenda do conflito entre Hórus e Set representa um evento histórico". De acordo com a inscrição no templo de Edfu, a primeira batalha pessoal entre Set e Hórus aconteceu no "Lago dos Deuses", que daí em diante passou a ser chamado "Lago da Batalha". Hórus conseguiu atingir Set com sua Lança Divina e, quando ele caiu, capturou-o e levou-o à presença de Ra. "A lança estava em seu pescoço, as pernas do maligno estavam acorrentadas e sua boca fechada por um golpe de clava do deus (Hórus)”. Ra decidiu que Hórus e Ísis poderiam fazer o que quisessem com Set e os outros conspiradores capturados. Mas quando Hórus começou a executar os prisioneiros, cortando-lhes a cabeça, Ísis ficou com pena de seu irmão Set e libertou-o. Existem várias versões dos acontecimentos que se seguiram, mas segundo a maioria delas a libertação do inimigo deixou Hórus tão furioso que ele decapitou Ísis, sua própria mãe. Thot, porém, recolocou a cabeça da deusa no lugar e ressuscitou-a. (Plutarco também relata esse incidente). Depois da fuga, Set escondeu-se num túnel subterrâneo. Após três dias, teve início uma série de combates aéreos. Hórus decolou num Nar (um "Pilar Flamejante"), que foi retratado como um objeto longo e cilíndrico equipado com barbatanas ou aletas. A parte dianteira continha dois "olhos", que ficavam mudando de cor, passando do azul para o vermelho e vice-versa. Da traseira saíam rastros como os de um jato. Além disso, o aparelho emitia raios pela porta dianteira. Os textos egípcios, todos escritos por cultuadores de Hórus, não descrevem o veículo aéreo de Set. As lendas falam de uma longa batalha sobre uma extensa região. O primeiro a ser atingido foi Hórus, que sofreu o impacto de um golpe de luz saído do veículo de Set. O Nar perdeu um de seus "olhos", mas Hórus continuou a luta usando o Disco Alado de Ra, e foi dele que lançou um "arpão" contra o inimigo. Foi a vez de Set ser atingido. Ele foi ferido e perdeu os testículos... Demorando-se sobre a natureza da arma usada por Hórus, W. Max Müller escreveu em Egyptian Mythology que ela possuía "uma ponta estranha" e que seu apelido nos textos hieroglíficos era "a arma dos trinta" . Como nos revelam os antigos desenhos, o "arpão" na verdade era um engenhoso foguete três em um. Depois do disparo do primeiro míssil, o maior, ficava aberto a caminho para o lançamento dos dois menores. O apelido "arma dos trinta" sugere que esse artefato era o que atualmente chamamos de míssil de ogiva múltipla. Por pura coincidência, mas talvez porque circunstâncias similares resultam em conotações similares, a Companhia McDonnell-Douglas de St. Louis, no Missouri, deu ao seu mais moderno míssil naval teleguiado o nome de "Arpão". Os grandes deuses pediram uma trégua e convocaram os adversários a se apresentarem diante do Conselho. Alguns pormenores das deliberações podem ser extraídos da inscrição gravada numa coluna de pedra do faraó Shabako (século 8 a.C.), que afirma que o texto é uma cópia de um rolo de papiro muito antigo, já "devorado pelos vermes", enterrado sob o grande templo de Ptah, em Mênfis. De início o Conselho re-dividiu o Egito entre Hórus e Set, mantendo as fronteiras existentes na época de Osíris, mas Geb contestou a decisão, preocupado com a questão da continuidade. Como Set poderia "abrir o corpo" para gerações futuras? Ele, por não possuir mais testículos, não tinha como gerar descendentes... E assim, Geb, "O Senhor Terra, legou como herança a Hórus" todo o Egito. Set recebeu um outro território em que pudesse exercer seu domínio, e, daí em diante, no entender dos egípcios, passou a ser uma deidade asiática. O Conselho dos Deuses adotou a recomendação com unanimidade. Seu ato final é assim descrito no Papiro de Hunefer:
Hórus está triunfante na presença de toda a companhia dos deuses. A soberania sobre o mundo lhe foi dada, e seus domínios atingem as partes mais distantes da Terra. O trono do deus Geb lhe foi concedido, junto com a patente criada pelo deus Shu.
Segundo o Papiro, a legitimação da decisão do Conselho:
Foi formalizada por decretos [que estão guardados] na Câmara dos Registros; Foi inscrita numa tábua de metal, conforme as ordens de teu pai Puh... Deuses celestiais e terrestres transferem-se para os serviços de teu filho Hórus. Eles o seguem ao Salão dos Decretos. Hórus será o senhor deles. October 14 Prefácio para a verdade.Muito antes de os homens guerrearem com os homens, os deuses lutaram entre si. De fato, as guerras entre os homens começaram com as guerras dos deuses. E as guerras dos deuses pelo domínio desta nossa Terra tiveram início em seu próprio planeta. Foi por causa delas que a primeira civilização da humanidade sucumbiu num holocausto nuclear. Isso é um fato, não ficção, e tudo o que se relaciona com ele foi registrado há muito tempo - nas Crônicas da Terra. 1 AS GUERRAS DO HOMEM
Na primavera de 1947, um jovem pastor que procurava uma ovelha perdida nas colinas áridas que dão para o mar Morto descobriu uma caverna e, em seu interior, centenas de rolos de papiro em jarros de barro. Esses e outros manuscritos encontrados na área nos anos subseqüentes - chamados coletivamente de Manuscritos do Mar Morto - permaneceram ali, cuidadosamente embalados e intocados, durante quase 2 mil anos, depois de terem sido escondidos durante a época turbulenta em que a Judéia desafiou o poderio do Império Romano. Seriam eles parte da biblioteca oficial de Jerusalém, levada para um local seguro antes de a cidade e seu templo caírem diante dos invasores no ano 70 ou, como afirma a maioria dos estudiosos, livros dos essênios, uma seita de eremitas com preocupações messiânicas? As opiniões estão divididas, pois o acervo continha tanto os tradicionais textos bíblicos como escritos que tratavam da organização, costumes e crenças da seita. Um dos mais longos e completos rolos, e talvez o mais impressionante de todos, trata de uma guerra futura, um tipo de Guerra Final. Intitulado pelos pesquisadores de A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, o texto prevê a disseminação de operações de guerra - combates locais em que de início estariam envolvidos os vizinhos mais próximos da Judéia - que iriam aumentando em ferocidade e escala até todo o mundo conhecido na Antiguidade ser abrangido. "O primeiro ataque dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, ou seja, contra o exército de Belial, se dará sobre as tropas de Edom, Moabe, a região dos amonitas e filisteus; depois sobre os quítios da Assíria e aqueles que violaram a Aliança e os ajudaram"... Após essas batalhas, "eles avançarão sobre os quítios do Egito" e, "na hora azada... contra os reis do norte". Nessa guerra de homens, profetiza o papiro, o Deus de Israel terá um papel ativo:
No dia em que os quítios caírem, haverá um tremendo combate, uma verdadeira carnificina, na presença do Deus de Israel;
Pois esse é o dia que Ele marcou há muito, muito tempo para a batalha final contra os Filhos das Trevas.
Muito antes de esse papiro ter sido escrito, o profeta Ezequiel já havia vaticinado a Batalha Final, "no fim dos tempos", entre Gog e Magog, em que o Senhor em pessoa "arrancará o arco de tua mão esquerda e fará as flechas caírem de tua mão direita". No entanto, o manuscrito do mar Morto vai além, prevendo a participação física de muitos deuses nessa guerra, combatendo ombro a ombro com os mortais.
Nesse dia, a Companhia do Divino e a Congregação dos Mortais estarão lado a lado na carnificina.
Os Filhos da Luz lutarão contra os Filhos das Trevas com uma exibição de poderio divino, entre estrondoso tumulto, entre os gritos de guerra de homens e deuses.
Apesar de os cruzados, os sarracenos e inúmeros outros combatentes em guerras históricas terem ido à luta "em nome de Deus", parece-nos fantástica a crença numa guerra futura onde o Senhor em pessoa estaria fisicamente presente às batalhas e deuses e homens combateriam ombro a ombro, uma idéia que deveria ser considerada, no máximo, uma alegoria. Todavia, não se trata de algo tão extraordinário assim, pois na Antiguidade acreditava-se que as guerras dos homens não somente eram decretadas pelos deuses, mas também contavam com sua participação ativa.
Uma das guerras mais romanceadas da história da humanidade, em que "o amor lançou mil navios ao mar", foi a guerra de Tróia, que envolveu os gregos aqueus e os troianos. Segundo sempre nos contaram os gregos a iniciaram com o objetivo de forçar os troianos a devolver a bela Helena a seu marido legítimo. No entanto, uma lenda épica grega, a Kypna, conta que o conflito foi tramado pelo grande Zeus:
Houve uma época em que milhares de homens sobrecarregavam o amplo seio da Terra. Compadecendo-se deles, Zeus, em sua grande sabedoria, resolveu aliviar o fardo da Terra.
Para isso, causou uma desavença em Ílion (Tróia) com o propósito de, por meio da morte, criar um vazio na raça dos homens.
Homero, o escritor grego que relatou os eventos dessa guerra na Ilíada, atribuiu-a aos caprichos dos deuses, que instigaram os conflitos, levando-os a assumir enormes proporções. Agindo direta ou indiretamente, às vezes visíveis, em outras não, os vários deuses atiçaram os principais atores desse drama humano. E por trás de tudo estava Jove (Júpiter/Zeus): "Enquanto os outros deuses e os guerreiros armados dormiam profundamente na planície, Jove mantinha-se acordado, pois pensava em como poderia honrar Aquiles e destruir muitas pessoas nos navios dos aqueus".
Já antes da batalha o deus Apolo incentivara as hostilidades: "Ele sentou-se longe dos navios, com o rosto sombrio como a noite, e seu arco de prata sibilou morte enquanto lançava a seta dos aqueus... Por nove dias inteiros ele disparou flechas contra o povo... E durante o dia todo queimavam as piras dos mortos". Quando os contendores aceitaram cessar as hostilidades, para que seus líderes decidissem a questão num combate corpo a corpo, os deuses, descontentes com essa idéia, instruíram a deusa Minerva: "Vá imediatamente ao campo de batalha e faça com que os troianos sejam os primeiros a romper a trégua e a atacar os aqueus". Ansiosa por levar a cabo sua missão, Minerva "lançou-se pelo firmamento como um brilhante meteoro... deixando atrás de si um rastro flamejante". Mais tarde, não desejando que a batalha encarniçada cessasse com a chegada da noite, a deusa iluminou o campo: "Ela levantou o véu de seus olhos e muita luz caiu sobre eles, tanto no lado onde estavam os navios como no campo de batalha. Os aqueus puderam ver Heitor e todos os seus homens".
Enquanto os combates prosseguiam, levando às vezes a uma luta corporal entre dois heróis, os deuses vigiavam, descendo de tanto em tanto para salvar um soldado acuado ou parar um carro desgovernado. Mas quando eles se deram conta de que estavam apoiando lados opostos, começaram a ferir-se mutuamente. Zeus então ordenou-lhes que parassem e se mantivessem fora da luta dos mortais.
Esse afastamento não durou muito, porque vários dos principais combatentes eram filhos de deuses com parceiros humanos. Marte ficou especialmente irritado quando seu filho Ascalafo caiu morto pela flecha de um aqueu. "Não me culpem, deuses que habitam o céu, se eu for aos navios dos aqueus para vingar a morte de meu filho", ele anunciou a seus pares, "mesmo se no final eu seja atingido pelo raio de Jove, para cair coberto de sangue e poeira entre os outros cadáveres."
"Enquanto os deuses se mantiveram afastados dos guerreiros mortais", escreveu Homero, "os aqueus triunfaram, pois Aquiles, que havia muito recusava-se a lutar, agora estava com eles". Porém, em vista do crescente rancor entre os deuses e da ajuda que agora os gregos recebiam do semi-deus, o herói Aquiles, Jove mudou de idéia:
"Quanto a mim, ficarei aqui no Olimpo, sentado, e observarei tranqüilamente. Mas vocês outros dirijam-se para os troianos ou aqueus e ajudem o lado que quiserem, segundo seu gosto". Assim falou Jove, dando permissão para a guerra. Ouvindo isso, os deuses escolheram seu lado e entraram na batalha.
Por muito tempo a Guerra de Tróia, bem como a própria Tróia, foi considerada apenas parte de um fascinante, mas improvável conjunto de lendas gregas que os eruditos, com um sorriso de tolerância, denominaram "mitologia". A cidade e os eventos ligados a ela ainda eram vistos como pura fantasia quando Charles McLaren sugeriu, em 1822, que um certo morro da Turquia, chamado Hissarlik, devia marcar a antiga localização da Tróia homérica. Todavia, só em 1870, quando um homem de negócios, Heinrich Schliemann, começou a escavar o sítio, arriscando nisso a própria fortuna, e apresentou espetaculares descobertas, foi que os eruditos passaram a acreditar na existência de Tróia. Hoje, em geral, aceita-se que a guerra ocorreu no século 13 a.C. Então, segundo fontes gregas, foi nessa época que homens e deuses lutaram lado a lado. Uma crença estranha, mas os gregos não eram os únicos a acreditar nela.
Naquele tempo, embora a ponta da Ásia Menor que dá para a Europa estivesse salpicada de povoados essencialmente gregos, a maior parte da região era dominada pelos hititas. Inicialmente conhecidos dos eruditos apenas por serem citados na Bíblia, e mais tarde nos textos egípcios, esse povo e seu reino - Hatti - também ganharam vida quando os arqueólogos começaram a descobrir as ruínas de suas cidades.
A decifração da escrita dos hititas e o estudo de sua língua indo-européia tornaram possível situar a origem desse povo no segundo milênio antes de Cristo, quando as tribos arianas começaram a migrar da área do Cáucaso, algumas dirigindo-se para a Índia, outras para a Ásia Menor. O reino hitita floresceu por volta de 1750 a.C. e entrou em declínio cerca de quinhentos anos depois, época em que passou a ser atormentado por incursões dos habitantes da área do mar Egeu. Os hititas referiam-se a esses invasores como o povo de Aquiyava, e muitos estudiosos acreditam que se trata do mesmo povo que Homero chamava aquioi - cujo ataque à ponta ocidental da Ásia Menor ele imortalizou na Ilíada.
Por muitos séculos antes da Guerra de Tróia, os hititas expandiram seu reino, que chegou a atingir proporções imperiais, afirmando estar cumprindo ordens de seu deus supremo, Teshub ("O Trovejante"), cujo epíteto mais antigo era "Deus da Tempestade cuja Força Causa Morte". Os reis hititas às vezes garantiam que ele participava pessoalmente das batalhas. Segundo escreveu o rei Murshilis, o poderoso deus da Tempestade mostrou seu divino poder e lançou um raio sobre o inimigo, ajudando-o a derrotá-lo. Quem também auxiliou os hititas foi a deusa Ishtar, cujo epíteto era "A Senhora do Campo de Batalha". Muitas vitórias lhe foram atribuídas pelo fato de ela "ter descido do céu para esmagar os países hostis".
A influência hitita como indicam muitas referências encontradas no Antigo Testamento, estendia-se até Canaã, ao sul. Todavia, os hititas viviam nessa região como colonizadores, e não como conquistadores, encarando a área como uma zona neutra, opinião não compartilhada pelos egípcios. Os faraós estavam sempre pretendendo ampliar seus domínios penetrando em Canaã e no País dos Cedros (Líbano), e terminaram sendo bem-sucedidos por volta de 1470 a.C. quando derrotaram uma coalizão de reis hititas em Megido.
O Antigo Testamento e as várias inscrições deixadas pelos inimigos dos hititas os mostram como guerreiros cruéis que aperfeiçoaram o uso do carro de combate no Oriente Médio da Antiguidade. Todavia, segundo sugerem os textos desse povo, eles só entravam em guerra quando seus deuses lhes ordenavam e depois que o inimigo tivesse a chance de se render pacificamente antes do início das hostilidades. Como vencedores, segundo esses mesmos textos, satisfaziam-se em receber tributos e cativos; não saqueavam as cidades nem massacravam a população.
Mas Tutmés III, o faraó que venceu a batalha de Megido, vangloriou-se em suas inscrições: "Esta majestade foi para o norte saqueando cidades e arrasando acampamentos". Ao falar de um rei vencido, escreveu: "Destruí suas cidades, incendiei seus acampamentos, transformando-os em montes de terra; jamais conseguirão repovoar a região. O povo inteiro capturei, fiz dele prisioneiro. Apoderei-me de suas inúmeras cabeças de gado, bem como de todas as suas mercadorias. Tomei tudo o que podia servir à vida: cortei seus grãos, derrubei os pomares e as árvores de sombra. Destruí-os totalmente". E, segundo o faraó, tudo isso foi feito sob as ordens de seu deus, Amon-Ra.
A natureza cruel dos guerreiros egípcios e a destruição impiedosa que infligiam aos inimigos vencidos eram objeto de orgulhosas inscrições. O faraó Pepi I, por exemplo, comemorou sua vitória sobre os "habitantes da areia" asiáticos num poema saudando seu exército, que "arrasou o país dos habitantes da areia... cortou sua figueiras e vinhedos... incendiou suas casas e matou dezenas de milhares de sua gente". Os textos eram acompanhados de vívidas representações de cenas de batalhas.
Seguindo essa tradição de crueldade, o faraó Pi-Ankhi, que enviou tropas do Alto Egito para esmagar uma rebelião no Baixo Egito, enfureceu-se diante da sugestão de seus generais para que poupasse os adversários derrotados. Jurando "destruição perene", o faraó prometeu entrar na cidade capturada "para arrasar o que tinha restado". E acrescentou: "Por isso meu pai, Amon, me elogia".
O deus Amon, a cujas ordens os egípcios atribuíam a própria crueldade nas batalhas, tinha um seu igual no Deus de Israel. Vejamos a citação do profeta Jeremias: "Assim disse o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: 'Punirei Amon, deus de Tebas, e os que nele confiam, e levarei a retribuição contra o Egito, seus deuses, faraós e reis..."'. Essa disputa, como nos conta a Bíblia, não tinha fim. Já mil anos antes, na época do êxodo, Iahweh, o Deus de Israel, fez cair sobre o Egito uma série de pragas, com o objetivo não apenas de amolecer o coração do faraó, mas também para funcionar como um "julgamento contra todos os deuses do Egito".
A milagrosa partida dos israelitas na direção da Terra Prometida, escapando da servidão, é atribuída a uma intervenção direta de Iahweh:
E, tendo saído de Sucot, acamparam em Etam, à entrada do deserto.
E Iahweh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os alumiar.
Houve em seguida uma batalha, que o faraó evitou deixar registrada em inscrições, mas que é contada no Livro do Êxodo:
E o coração do Faraó e seus servos mudaram a respeito do povo...
E os egípcios seguiram depois deles, e os alcançaram acampados junto ao mar...
E Iahweh, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez o mar se retirar; e as águas foram divididas.
Os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco...
Ao alvorecer, quando os egípcios deram-se conta do que tinha acontecido, o faraó mandou seus carros perseguirem os israelitas. Mas...
Na vigília da manhã, Iahweh, da coluna de fogo e da nuvem, viu o acampamento dos egípcios e nele lançou confusão. Ele emperrou as rodas de seus carros e fê-los andar com dificuldade.
Então, os egípcios disseram:
"Fujamos da presença dos israelitas, porque Iahweh combate a favor deles contra o Egito".
Mas o governante egípcio que perseguia os israelitas ordenou que seus carros continuassem o ataque. O resultado lhe foi calamitoso.
E as águas voltaram e cobriram os carros e cavaleiros de todo o exército do Faraó, que os haviam seguido no mar; e não escapou um só deles... E Israel viu o grande poder que Iahweh havia mostrado contra os egípcios.
A linguagem bíblica é quase idêntica à que um faraó posterior, Ramsés II, usou para descrever o milagroso aparecimento de Amon-Ra durante a decisiva batalha contra os hititas, em 1286 a.C. O combate, travado na fortaleza de Cades, no Líbano, mobilizou quatro divisões de Ramsés II contra as forças reunidas pelo rei Muwatallis, dentre todas as partes de seu império. Terminou com a retirada egípcia, abortando o avanço do faraó em direção à Síria e à Mesopotâmia. No entanto, a batalha esgotou os recursos hititas e deixou-os fracos e vulneráveis. A vitória hitita poderia ter sido mais decisiva, uma vez que estes quase conseguiram capturar o faraó. Até agora, só foram encontrados fragmentos de inscrições hititas sobre a guerra. Mas Ramsés, ao voltar para o Egito, achou conveniente descrever em detalhes o milagre de sua fuga. Suas inscrições nas paredes dos templos, acompanhadas de ilustrações detalhadas, contam como as hostes egípcias chegaram a Cades e acamparam ao sul da cidade, preparando-se para a batalha. Surpreendentemente, os hititas não avançaram contra eles. Ramsés, então, ordenou que duas divisões atacassem a fortaleza. Foi quando os carros hititas surgiram, como se viessem do nada, pegando pela retaguarda as divisões que avançavam e causando grandes estragos no acampamento das outras duas. Quando as tropas egípcias começaram a fugir em pânico, Ramsés subitamente percebeu que "estava sozinho com seu guarda-costas" e, "quando o rei olhou para trás, viu que estava bloqueado por 2500 carros" do inimigo. Abandonado por seus oficiais, pelos condutores e pela infantaria, o faraó voltou-se para seu deus, lembrando-o de que só se encontrava naquela situação aflitiva porque atendera as ordens dele:
E sua Majestade disse: "E agora, meu Pai Amon"? Um pai esqueceu-se de seu filho? "Seja o que for que eu tenha feito ou não, não foi seguindo tuas ordens"? Lembrando ao deus egípcio que o inimigo adorava outros deuses, Ramsés perguntou: "O que são esses asiáticos para ti, ó Amon? Esses miseráveis que de ti nada conhecem, ó Deus?". O faraó continuou implorando a Amon para salvá-lo, lembrando-lhe que os poderes da divindade eram maiores do que "milhões de soldados, centenas de condutores de carros", e então aconteceu o milagre: o próprio deus surgiu no campo de batalha!
Amon ouviu quando chamei. Ele estendeu a mão para mim e me rejubilei. Colocou-se atrás de mim e gritou: "Para a frente"! Para a frente! "Ramsés, filho amado de Amon, estou contigo"!
Seguindo as ordens de seu deus, Ramsés avançou para o meio das tropas hititas. Sob a influência de Amon, os inimigos mostraram-se inexplicavelmente debilitados. "Suas mãos caíram para os lados, eles não conseguiam segurar e atirar as lanças". E os hititas diziam uns aos outros: "Não é mortal este que está entre nós. Ele é um deus poderoso; seus feitos não são de homem; há um deus em seus membros". Sem encontrar oposição, matando inimigos à esquerda e à direita, Ramsés conseguiu escapar. Depois da morte de Muwatallis, os reinos egípcio e hitita firmaram um tratado de paz, e o faraó tomou como sua principal esposa uma princesa hitita. A paz, era necessária porque não apenas os hititas, mas também os egípcios estavam sendo ameaçados pelos "povos do mar", invasores vindos de Creta e de outras ilhas gregas. Estes acabaram conquistando territórios na costa mediterrânea de Canaã e tornaram-se os filisteus da Bíblia. No entanto, os ataques que lançaram contra os egípcios foram rechaçados pelo faraó Ramsés III, que comemorou a vitória mandando pintar as cenas da batalha nas paredes dos templos. Nas inscrições, ele atribuiu seu êxito "ao Todo-Poderoso, meu augusto divino pai, o Senhor dos Deuses". O crédito do triunfo deveria caber a Amon-Ra, pois, como afirmou o faraó, ele "estava na retaguarda do inimigo, destruindo-o".
A trilha sangrenta das guerras dos homens contra seus semelhantes em favor dos deuses agora nos leva à Mesopotâmia - a Terra entre os Rios (Tigre e Eufrates) -, o país bíblico de Senaar. Foi lá, segundo é relatado no Gênesis, 11, que surgiram as primeiras cidades com prédios feitos de tijolos e torres que pareciam arranhar o céu. Foi lá também que se iniciou o registro da História, e mais, onde começou a Pré-História, com o estabelecimento das primeiras povoações dos antigos deuses. Mil anos antes dos tempos dramáticos de Ramsés II, na distante Mesopotâmia, um jovem ambicioso subiu ao trono. Seus súditos o chamavam de Sharru-Kin - "O Governante Justo"; nossos livros de história referem-se a ele como Sargão I. Esse rei construiu uma nova capital, Acad, e fundou o reino de Acad. A língua acadiana, escrita com caracteres cuneiformes, foi a língua-mãe de todos os idiomas semíticos, dos quais continuam em uso o hebraico e o árabe. Tendo governado durante a maior parte do século 24 a.C., Sargão atribuía a longa duração do seu reinado (54 anos) à condição especial que lhe fora dada pelos Grandes Deuses, fazendo dele "Supervisor de Ishtar, Sacerdote Ungido de Anu, o Grande e Virtuoso Pastor de Enlil". Segundo escreveu o rei, foi Enlil "que não deixou ninguém se opor a Sargão" e lhe concedeu "a região do Mar Superior até o Mar Inferior" (do Mediterrâneo até o golfo Pérsico). Era por isso que Sargão levava os reis capturados em batalhas, puxando-os por cordas presas a coleiras, ao "portão da Casa de Enlil". Numa de suas campanhas nas montanhas Zagros, Sargão teve a oportunidade de presenciar um milagre dos deuses igual ao testemunhado pelos combatentes de Tróia. Enquanto ele "avançava pelo país Warahshi... penetrando na escuridão... Ishtar fez uma luz brilhar". Dessa forma, o rei pôde liderar suas tropas no avanço através da montanha do atual Luristão. A dinastia acadiana iniciada por Sargão chegou ao auge sob seu neto Naram-Sin ("O Amado do Deus Sin"). Segundo está gravado nos monumentos que ele construiu, suas conquistas foram possíveis porque seus deuses o armaram com um artefato singular, "A Arma do Deus", e outros deuses consentiram em sua entrada - ou até o convidaram a fazê-lo - nas regiões sob sua proteção. Naram-Sin concentrou a maior parte de seu avanço na região a noroeste de seu reino, e uma de suas conquistas foi a cidade-Estado de Ebla, cujo arquivo de tabuinhas de argila, recém-descoberto, continua despertando grande interesse científico. "Embora desde a época da separação da humanidade nenhum rei jamais tenha destruído Arman e Ebla, o deus Nergal abriu caminho para o poderoso Naram-Sin e deu-lhe as duas cidades. O deus também o presenteou com Amanus, a Montanha dos Cedros, até o Mar Superior". Naram-Sin atribuiu aos deuses tanto suas campanhas bem-sucedidas como sua queda, ocorrida por ele ter ido à guerra contra suas ordens expressas. Os eruditos reconstituíram, a partir de fragmentos de várias versões, um texto que intitularam de A Lenda de Naram-Sin. Falando na primeira pessoa, o rei explica nessa lamentação que seus problemas começaram quando a deusa Ishtar "mudou de planos" e os deuses deram sua bênção a "sete reis, sete irmãos, gloriosos e nobres, com tropas de 360 mil homens". Vindos da região onde atualmente se encontra o Irã, esses guerreiros invadiram os países montanhosos de Gutium e Elam, a leste da Mesopotâmia, e começaram a avançar sobre Acad. Naram-Sin pediu orientação aos deuses e foi aconselhado a guardar as armas e ir dormir com sua esposa (mas, por algum motivo qualquer, não devia fazer sexo com ela).
Os deuses lhe responderam: "Ó Naram-Sin, esta é nossa palavra": Esse exército que contra ti avança... Amarra tuas armas, num canto as encoste! Contenha tua ousadia, fica em casa! Junto com tua esposa, vá dormir, Mas com ela não podes... "Sair de teu país, ir ao encontro do inimigo, não deves".
Mas Naram-Sin, contrariando o desejo dos deuses, declarou que confiava no próprio poderio e decidiu atacar o inimigo. "Quando chegou o primeiro ano, mandei 120 mil soldados, mas nenhum voltou vivo", confessou o rei na lamentação. Mais tropas foram aniquiladas no segundo e terceiro ano, e Acad aos poucos ia sucumbindo diante da fome e da morte. No quarto aniversário da guerra não autorizada, Naram-Sin suplicou ao deus Ea que passasse por cima da autoridade de Ishtar para colocar seu caso diante dos outros deuses. Estes o aconselharam a desistir da luta, prometendo: "Nos dias que virão, Enlil fará cair a perdição sobre os filhos do mal", e então Acad teria sua vingança. A prometida Era de paz durou três séculos, durante os quais a parte mais antiga da Mesopotâmia, a Suméria, ressurgiu como a sede da monarquia, e os primeiros centros urbanos da Antiguidade - Ur, Nippur, Lagash, Isin e Larsa - voltaram a florescer. A Suméria, sob o governo dos reis de Ur, era o cerne de um império que abrangia todo o Oriente Médio. Todavia, no final do terceiro milênio anterior a Cristo, a região tornou-se uma arena onde se conflitavam lealdades e exércitos. Foi então que essa grande civilização a primeira de que se tem notícia no mundo - sucumbiu, numa catástrofe de proporções sem precedentes. Esse foi um evento fatídico que, acreditamos, teve eco nos relatos bíblicos, um desastre cuja lembrança durou muito, muito tempo, e foi tema de inúmeros poemas de lamentação. Esses textos nos dão uma descrição bem clara do estrago e da desolação que se abateram sobre o âmago dessa antiga civilização. E, segundo os textos mesopotâmicos, tal catástrofe que destruiu a Suméria ocorreu por decisão do conselho dos grandes deuses. A parte sul da Mesopotâmia levou um século para ser repovoada e mais outro para se recuperar totalmente da aniquilação divina. A essa altura, a sede do poder se transferira para o norte, para a Babilônia, onde se levantaria um novo império, proclamando como sua deidade suprema um deus ambicioso - Marduk. Por volta de 1800 a.C., Hamurabi, o rei que ficou famoso pela criação de um código de leis que levou seu nome, subiu ao trono da Babilônia e começou a alargar suas fronteiras. Segundo suas inscrições, os deuses não apenas lhe diziam se e quando devia desencadear suas campanhas militares, mas também lideravam seus exércitos.
Com o poder dos grandes deuses, o rei, filho amado de Marduk, restabeleceu as fundações da Suméria e de Acad. Sob o comando de Anu e com Enlil à frente de seu exército, e mais os extraordinários poderes que os deuses lhe deram, ele não podia ser vencido pelo exército de Emutbal e seu rei, Rim-Sin...
Para Hamurabi derrotar os inimigos, o deus Marduk presenteou-o com uma "arma poderosa", chamada "O Grande Poder de Marduk".
Com a Arma Poderosa com a qual Marduk proclamava seus triunfos, o herói (Hamurabi) derrotou em batalha os exércitos de Eshnunna, Subartu e Gutium... Com o Grande Poder de Marduk ele venceu os exércitos de Sutium, Turukku, Kamu... Com o Grande Poder que Anu e Enlil lhe deram, derrotou todos os seus inimigos até o país de Subartu.
No entanto, o poderio da Babilônia não durou muito, pois logo surgiu um rival a sua altura, situado mais ao norte - a Assíria, onde o deus supremo era Assur (O que Tudo Vê). Enquanto os babilônios engalfinhavam-se com inimigos ao sul e a leste, os assírios foram estendendo seu domínio nas direções norte e oeste, indo até "o país do Líbano, nas margens do Grande Mar". Essas regiões pertenciam aos deuses Ninurta e Adad, e os reis da Assíria tomaram o cuidado de registrar que suas campanhas foram iniciadas sob ordens explícitas dos dois. Tiglat-Pileser I comemorou suas guerras, no século 12 a.C., com as seguintes palavras:
Tiglat-Pileser, o rei legítimo, rei do mundo, rei da Assíria, rei das quatro regiões da terra; O corajoso herói, guiado pelas ordens de Assur e Ninurta, os grandes deuses, seus amos, derrotou os inimigos... Sob o comando de meu senhor Assur, minha mão conquistou desde a parte inferior do rio Zab até o Mar Superior, que fica a oeste. Três vezes marchei contra os países dos Nairi... Fiz ajoelharem-se aos meus pés trinta reis dos países dos Nairi. Desses países eu trouxe reféns e recebi cavalos domados como tributo... Sob o comando de Anu e Adad, meus amos, fui até as montanhas do Líbano, onde cortei vigas de cedro para os templos desses grandes deuses.
Ao assumirem o título de "rei do mundo, rei das quatro regiões da terra", os governantes assírios estavam desafiando a Babilônia, pois uma dessas quatro regiões, onde séculos antes tinham florescido a Suméria e Acad, ficava dentro do Império Babilônico. O único modo de eles tornarem verdadeira essa afirmação era estendendo seu domínio sobre as cidades onde os grandes deuses tinham morado no passado. No entanto, até mesmo o caminho para esses locais estava bloqueado pelos babilônios, e assim permaneceu por muito tempo. A glória de conquistar essa região sagrada coube a Shalmaneser III, no século 9 a.C. Ele disse em suas inscrições:
Marchei contra Acad para vingar... Infligi derrota... Entrei em Kutha, na Babilônia e em Borsippa. Ofereci sacrifícios aos deuses nas cidades sagradas de Acad. Desci o rio até a Caldéia e recebi tributo de todos os seus reis... Na época, Assur, o Grande Senhor... Deu-me cetro, cajado... Tudo o que seria necessário para governar o povo. Eu agia somente sob as ordens expressas de Assur, o Grande Senhor, meu amo.
Descrevendo suas campanhas militares, Shalmaneser afirmou que conseguira suas vitórias graças às armas fornecidas pelos dois deuses: "Lutei com a Força Poderosa que Assur, meu senhor, me deu; e com as armas com que Nergal, meu líder, me presenteou". A arma de Assur foi descrita como tendo um "Brilho aterrador". Numa guerra contra os Adini, o inimigo fugiu só ao ver o "Brilho de Assur". A Babilônia, depois de vários atos de desafio, foi derrotada e saqueada pelo rei assírio Senaqueribe (689 a.C.), e esse infortúnio só aconteceu porque o deus Marduk, encolerizado com o rei babilônio e seu povo, decretou: "Setenta anos serão a medida de sua desolação" - exatamente a mesma sentença que mais tarde o Deus de Israel imporia sobre Jerusalém. Com a subjugação de toda a Mesopotâmia, Senaqueribe pôde ostentar legitimamente o ambicionado título de "rei da Suméria e de Acad". Senaqueribe, como tantos outros, mandou gravar inscrições descrevendo suas campanhas militares ao longo da costa do Mediterrâneo, inclusive batalhas com os egípcios na entrada da península do Sinai. A lista de cidades conquistadas por ele parece um capítulo do Antigo Testamento - Sídom, Tiro, Biblos, Akko, Ashdod, Ascalon. Eram "idades fortes", que o rei assírio "oprimiu" com o auxílio do "Brilho aterrador, a arma de Assur, meu senhor". Os baixos-relevos que ilustram o relato das campanhas, como o que mostra o cerco de Lachish, mostram os atacantes usando contra o inimigo objetos em forma de míssil. Nas cidades conquistadas, conta Senaqueribe, "matei seus oficiais e seus aristocratas, pendurei seus corpos em postes em torno da cidade; os cidadãos comuns foram por mim considerados prisioneiros de guerra". Um artefato conhecido como o Prisma de Senaqueribe preservou uma inscrição de grande valor histórico em que o rei menciona a subjugação da Judéia e seu ataque contra Jerusalém. O pomo da discórdia entre o assírio e o soberano judeu, Ezequias, foi o fato de este manter em cativeiro o rei da cidade filistéia de Ekrom, Padi, "que era leal a seu solene juramento ao deus Assur". "Quanto a Ezequias, o judeu", escreveu Senaqueribe, "que não se submeteu ao meu jugo, sitiei quarenta e seis de suas cidades fortificadas, fortes e incontáveis vilarejos em suas vizinhanças... Mantive Ezequias cativo em Jerusalém, sua residência real; cerquei-o de aterros, deixando-o como um pássaro na gaiola... As cidades que saqueei, separei de seu reino e dei-as a Mitinti, rei de Ashdod, a Padi, rei de Ekrom, e a Sillibel, rei de Gaza. Dessa forma, reduzi o tamanho de seu país." O cerco de Jerusalém pelos assírios nos oferece uma série de aspectos interessantes. Para começar, a causa do ataque foi indireta: Ezequias não desafiou Senaqueribe, mas mantinha em cativeiro o rei de Ekrom. O "Brilho aterrador, a arma de Assur", empregado para "oprimir as cidades fortes" da Fenícia e da Filistéia, não foi usado contra Jerusalém. E mais: o costumeiro final dessas inscrições comemorativas - "Lutei com eles e lhes impus a derrota" - não existe no relato sobre o cerco de Jerusalém. Senaqueribe termina dizendo apenas que diminuiu o tamanho da Judéia, dando as áreas periféricas aos reis vizinhos. Outro aspecto incomum na inscrição sobre Jerusalém é a ausência da afirmação habitual de que o soberano atacou a cidade em cumprimento às "ordens expressas" do deus Assur. Podemos imaginar se isso não é um indício de que o ataque a Jerusalém foi um ato não autorizado, um capricho de Senaqueribe, algo que não espelhava o desejo dos deuses. Essa intrigante possibilidade torna-se uma probabilidade convincente quando lemos o outro lado da história - um outro lado que está descrito no Antigo Testamento. Enquanto o rei assírio fala por alto de seu fracasso na tomada de Jerusalém, o relato encontrado em II Reis, 18 e 19, conta tudo. Ficamos sabendo que: "No décimo quarto ano do rei Ezequias, Senaqueribe, rei da Assíria, veio para atacar todas as cidades fortificadas de Judá e apoderou-se delas". Senaqueribe enviou dois de seus generais para Jerusalém, à frente de um grande exército. No entanto, em vez de atacar a capital, o general Rab-Shakeh começou a conversar com os líderes da cidade, insistindo em usar a língua hebraica para que toda a população pudesse entendê-lo. O que ele precisava dizer de tão importante para o povo comum? Como deixa claro o texto bíblico, o general assírio buscava convencer os cidadãos de Jerusalém de que aquela invasão tinha sido autorizada pelo Senhor Iahweh! "E Rab-Shakeh lhes disse: 'Dizei a Ezequias: Assim fala o grande rei, o rei da Assíria: Que confiança é essa em que tu te estribas’"?
Dir-me-eis, talvez: "É em Iahweh, nosso Deus, que pomos nossa confiança". E então, foi porventura sem o consentimento de Iahweh que ataquei esta cidade para destruí-la? Foi Iahweh que me disse: "Ataca este país e devasta-o"!
Quanto mais os representantes do rei Ezequias, postados no alto das muralhas imploravam a Rab-Shakeh para parar de dizer tais inverdades e falasse em aramaico, a língua diplomática da época, mais o general aproximava-se gritando em hebraico para que todos entendessem. Logo ele começou a insultar seus interlocutores, em seguida passou a ofender o rei. Empolgado com a própria eloqüência, Rab-Shakeh esqueceu-se da alegação de que possuía a permissão de Iahweh para atacar Jerusalém e pôs-se a menosprezar o Deus também. Quando o rei Ezequias foi informado dessas blasfêmias, "rasgou suas roupas, cobriu-se com um pano de saco e foi ao Templo de Iahweh... E enviou mensagem ao profeta Isaias, dizendo: 'Hoje é um dia de aborrecimento, de opróbrio, de blasfêmia... Oxalá Iahweh, teu Senhor, tenha ouvido todas as palavras de Rab-Shakeh, que o rei da Assíria, seu mestre, mandou para insultar o Deus vivo!'. E a palavra de Iahweh veio por intermédio de Isaías: 'Ouvi a súplica que me dirigiste a respeito de Senaqueribe, rei da Assíria... Por onde veio, ele voltará; não entrará nesta cidade... Pois a defenderei e a salvarei'" .
Naquela mesma noite veio o anjo de Iahweh e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta mil homens. Ao alvorecer só havia cadáveres. Senaqueribe, rei da Assíria, levantou acampamento e partiu. Voltou para Nínive e lá permaneceu.
Ainda segundo o Antigo Testamento, depois que o rei voltou a Nínive, "certo dia ele estava no templo de Nesroc, adorando seu deus, quando seus filhos Adramelec e Sarasar mataram-no a espada e fugiram para a terra de Ararat. Asaradão, seu filho, reinou em seu lugar". Os anais assírios confirmam a declaração bíblica. Senaqueribe foi mesmo assassinado dessa forma, e seu filho mais novo, Asaradão, ascendeu ao trono. Uma inscrição de Asaradão, conhecida como Prisma B, descreve as circunstâncias com mais detalhes, contando que Senaqueribe, seguindo as ordens dos grandes deuses, proclamou o filho mais novo como seu sucessor. "Ele convocou o povo da Assíria, velhos e jovens, e fez meus irmãos, os descendentes masculinos de meu pai, prestarem um juramento solene na presença do deus da Assíria... Para garantir minha sucessão". No entanto, os irmãos quebraram o juramento, mataram Senaqueribe e tentaram eliminar Asaradão. Este foi salvo pelos deuses, que o levaram para longe. "Colocaram-me num esconderijo... Preservando-me para a monarquia." Depois de um período turbulento, Asaradão recebeu uma ordem dos deuses: "Vai, não demora! Marcharemos contigo"! Ishtar foi a deidade encarregada de acompanhar o legítimo herdeiro. Quando as forças dos dois irmãos de Asaradão saíram de Nínive com a intenção de repelir o ataque contra a capital, "Ishtar, a Senhora da Batalha, que me desejava como seu sumo sacerdote, ficou ao meu lado. Ela quebrou os arcos das tropas e desordenou suas fileiras". Ao ver as tropas de Nínive se dispersando, Ishtar dirigiu-se aos guerreiros falando por Asaradão. "Diante de seu altíssimo comando, eles se aproximaram de mim em massa, juntaram-se às minhas costas e me reconheceram como seu rei", escreveu Asaradão. Tanto Asaradão como seu filho e sucessor, Assurbanipal, tentaram conquistar o Egito e empregaram Armas de Brilho nas batalhas. "O Brilho aterrador de Assur cegou o faraó, e ele enlouqueceu", escreveu Assurbanipal. Outras inscrições desse rei sugerem que a arma, que emitia um fulgor intenso e cegante, era usada pelos deuses como parte de seu toucado. Num relato, um inimigo "foi cegado pelo brilho da cabeça divina"; em outro, "Ishtar, que mora em Arbela, vestida de Fogo Divino e ostentando o Toucado Radiante, fez chover chamas sobre a Arábia". O Antigo Testamento também faz referência a uma Arma de Brilho que podia cegar. Quando os Anjos (literalmente, emissários) do Senhor chegaram a Sodoma pouco antes da destruição da cidade, o populacho tentou arrombar a porta da casa em que eles repousavam. O Anjos reagiram: "Quanto aos homens que estavam na entrada da casa, eles cegaram do menor até o maior, de modo que não conseguiam encontrar a entrada".
À medida que a Assíria ia conquistando a supremacia, ampliando seu domínio sobre o Egito, seus reis, segundo as palavras do Senhor transmitidas pelo profeta Isaías, foram se esquecendo de que eram apenas instrumentos dos deuses: "Ai da Assíria, açoite da minha ira! Minha fúria é o bastão posto nas mãos deles. Contra nações ímpias eu os enviei; contra povos que me enfureciam os lancei". Mas os reis da Assíria tinham chegado a um ponto em que uma mera punição não seria suficiente: "O que estava em seu propósito era exterminar e destruir um grande número de nações", algo totalmente fora das intenções do Deus; portanto, anunciou Iahweh, "eu darei o castigo ao rei da Assíria devido aos frutos da arrogância crescente de seu coração". . As profecias bíblicas que previam a queda da Assíria provaram ser verdadeiras. Quando os invasores vindos do norte e do leste juntaram-se aos rebeldes babilônios do sul do império, Assur, a capital religiosa, foi atacada e caiu em 614 a.C. A cidade real, Nínive, foi invadida e saqueada dois anos depois, e assim a grande Assíria deixou de existir. Reis vassalos do Egito e da Babilônia aproveitaram-se da desintegração do Império Assírio para tentar a restauração de suas próprias hegemonias. As terras situadas entre os dois reinos tornaram-se de novo um prêmio cobiçado. Os egípcios, conduzidos pelo faraó Necho, foram mais rápidos e invadiram esses territórios. Na Babilônia, Nabucodonosor II - segundo suas inscrições recebeu ordens do deus Marduk para pôr seu exército em marcha para o oeste. A expedição só foi possível porque um "outro deus", aquele que originalmente tinha a soberania sobre a região, "não desejava mais a terra dos cedros" e agora "um inimigo estrangeiro estava dominando-a e saqueando-a". Em Jerusalém, a ordem de Iahweh, dada por intermédio de seu profeta Jeremias, foi apoiar a Babilônia, pois Ele, chamando Nabucodonosor de "meu servo", decidira fazer dele o instrumento de sua ira contra os reis egípcios:
Assim disse Iahweh dos Exércitos, Deus de Israel: Eis que mandarei buscar Nabucodonosor, meu servo... Ele virá e ferirá a terra do Egito. Quem é para a morte, a morte! Quem é para o cativeiro, o cativeiro! Quem é para a espada, a espada! Ele ateará fogo nos templos dos deuses do Egito, os queimará e os deportará... Ele quebrará os obeliscos de Heliópolis, aquele que está na terra do Egito, e incendiará os templos dos deuses do Egito.
O Senhor Iahweh acrescentou que, no curso dessa campanha de Nabucodonosor, Jerusalém também seria castigada por causa dos pecados do povo, que havia adotado o culto de adoração à "Rainha do Céu" e aos deuses do Egito. "Minha cólera e minha fúria se derramarão sobre este lugar... Que queimará e não se apagará... Na cidade onde chamavam meu nome, darei início à destruição". E foi o que aconteceu em 586 a.C.: "Nabuzardã, capitão da guarda do rei da Babilônia, veio a Jerusalém. Ele incendiou a Casa de Iahweh, a casa do rei e todas as casas de Jerusalém. Todo o exército de caldeus que estava com o capitão da guarda derrubou as muralhas em torno de Jerusalém". O Deus de Israel, contudo, prometeu que a desolação da cidade duraria apenas setenta anos. O rei que se encarregaria de cumprir essa promessa e possibilitaria a reconstrução do Templo de Jerusalém seria Ciro. Acredita-se que os ancestrais de Ciro, que falavam uma língua indo-européia, migraram para o sul vindos da região do Mar Cáspio e instalaram-se na província de Anzan, na margem leste do golfo Pérsico. Nesse local o chefe dos migrantes, Hakham-Anish ("O Sábio") iniciou a dinastia dos Aquemênidas. Seus descendentes - Ciro, Dario, Xerxes - fizeram história como soberanos do Império Persa. Quando Ciro ascendeu ao trono de Anzan, em 549 a.C., sua terra era uma distante província de Elam e da Média. Na Babilônia, o centro do poder, o governante era Nabunaid, que se tornara rei em circunstâncias incomuns. Não houve a costumeira escolha feita pelo deus Marduk, mas sim um pacto singular entre a grande sacerdotisa, a mãe de Nabunaid, e o deus Sin. Uma tabuinha de argila parcialmente danificada contém o relato sobre a indicação do rei: "Ele montou uma estátua herética num pedestal... Chamou-a de 'o deus Sin'... Na época apropriada do Festival de Ano-Novo, avisou de que não haveria celebrações... Ele confundiu os ritos e prejudicou as cerimônias". Enquanto Ciro guerreava com os gregos na Ásia Menor, Marduk - tentando recuperar sua posição de deidade nacional da Babilônia - "perscrutava todos os países à procura de um governante virtuoso, disposto a ser conduzido por ele. Então gritou o nome de Ciro, rei de Anzan, e proclamou-o governante de todos os países". Depois que os primeiros feitos de Ciro mostraram que ele agia de acordo com os desejos de Marduk, este "deu-lhe ordem de marchar contra sua própria cidade, a Babilônia. Fez com que ele tomasse a estrada para a Babilônia caminhando a seu lado como um verdadeiro amigo". Assim, acompanhado pelo deus supremo da Babilônia em pessoa, Ciro conseguiu conquistar a cidade sem derramamento de sangue. No dia correspondente a 20 de março de 538 a.C., Ciro "segurou as mãos de Bel (O Senhor) Marduk" no recinto sagrado da Babilônia. No ano novo, seu filho, Cambises, oficiou os ritos divinos na restauração do festival em honra de Marduk. Ciro legou à seus sucessores um império que abrangia todos os reinos antigos, com exceção de um. Eram eles: Suméria, Acad, Babilônia e Assíria, na Mesopotâmia; Elam e Média ao leste; os territórios do norte; as terras hititas e gregas na Ásia Menor; Fenícia, Canaã e Filistéia, que agora tinham um único soberano e um só deus supremo - Ahura Mazda, Deus da Luz e da Verdade. Na Pérsia antiga esse soberano era retratado como uma deidade barbuda percorrendo o Firmamento dentro de um Disco Alado, uma figura bem parecida com o deus supremo dos assírios, Assur. Em 529 a.C., ano em que Ciro morreu, o único país independente do Império Persa no Oriente Médio e que tinha os próprios deuses era o Egito. Alguns anos depois, Cambises, filho e sucessor de Ciro, avançou com suas tropas pela costa mediterrânea da península do Sinai e derrotou os egípcios em Pelúsio; mais tarde entrou em Mênfis, a capital real, e proclamou-se faraó. Apesar da vitória, Cambises evitou empregar em suas inscrições egípcias a habitual frase de abertura: "O grande deus, Ahura Mazda, me escolheu", reconhecendo assim que o Egito não estava sob o domínio dessa deidade. E mais: em deferência aos deuses egípcios, ele se prostrou diante de suas estátuas, aceitando sua supremacia. Os sacerdotes legitimaram sua soberania sobre o Egito, concedendo-lhe o título de "Rebento de Ra". O Oriente Médio da Antiguidade agora estava unido sob um único rei, escolhido pelo "Grande Deus da Luz e da Verdade" e aceito pelos deuses do Egito. Nem homens nem deuses tinham mais motivos para guerrear uns contra os outros. Paz na Terra! Essa paz, porém, não durou muito. No outro lado do Mediterrâneo os gregos estavam crescendo em poder, riqueza e ambição. A Ásia Menor, o mar Egeu e a região oriental do Mediterrâneo passaram a ser arenas de combates nacionais e internacionais. Em 490 a.C., Dario I tentou invadir a Grécia e foi derrotado em Maratona. Nove anos depois, os gregos venceram Xerxes I em Salamina. Então, um século e meio depois, Alexandre da Macedônia deixou a Europa para se lançar numa campanha de conquista que fez o sangue correr em todos os países do Oriente Médio da Antiguidade, até a Índia. Ele também estaria cumprindo uma "ordem expressa" dos deuses? Não, bem ao contrário. Acreditando numa lenda que afirmava ser ele filho de um deus egípcio, Alexandre fez questão de iniciar seu avanço abrindo caminho até o Egito, pois desejava ouvir do oráculo desse deus a possível confirmação de sua origem semi-divina. No entanto, além de afirmar sua condição de semi-deus, o oráculo também previu sua morte prematura; daí em diante as viagens e conquistas de Alexandre tiveram um principal propósito: a busca das Águas da Vida, que ele beberia para escapar de sua sina. Embora tenha tido tempo de espalhar uma grande carnificina, Alexandre morreu jovem, como previra o oráculo. Depois dele, as guerras dos homens têm envolvido apenas homens. - Zecharia Sitchin, Guerras de Deuses e Homens. |
A cada semana postarei um capítulo do livro Guerras de Deuses e Homens, de Zecharia Sitchin.
Anderson Oliveirawrote:
Devido a problemas técnicos, a postagem de capítulos está adiada.
Nov. 24
|
||||||||||||||||||||||||||||
|
|